Quatro séculos depois, é espantoso e sumamente comovente verificar como a Novena que antecede a Solenidade de Nossa Senhora dos Remédios mantém intacta a sua capacidade mobilizadora.
Apesar do seu horário matutino (seis da manhã), o Santuário torna-se pequeno para acolher tantos que o procuram e enchem não só a nave do mesmo, mas também o presbitério, a sala dos retratos, o coro alto e partes significativas do adro.
Os anais das festas não costumam dar-lhe destaque e até a apresentam em caracteres reduzidos. Mas o povo crente, de diversas procedências e faixas etárias, acorre como que movido pelo apelo eletrizante da Mãe.
Ano após ano, o cenário repete-se. Mal entoam as seis badaladas do sino e os correspondentes morteiros, o sacrário é aberto e o Senhor é exposto, com o canto da assembleia, dinamizada pelo Grupo Coral.
O segredo da atratividade da Novena está precisamente no facto de cada geração ser fiel ao que lhe foi legado pela geração precedente: a adoração, com a recitação dos mistérios do Rosário, a «Ave, Maria» singularíssima, a ladainha e a Bênção do Santíssimo Sacramento.
Segue-se a Eucaristia com uma breve meditação a seguir à proclamação do Evangelho e um apontamento musical do Padre Marcos Alvim que entra no ouvido e se aloja no coração.
O sacramento do Perdão é celebrado ao longo de todo o percurso do novenário.
Um dos cenários mais tocante é que, começando sob o céu escuro pelo breu da noite, a Novena faz brilhar as primeiras incursões solares por volta do início da Eucaristia.
O tema deste ano foi 265 ANOS A PEREGRINAR PARA O SANTUÁRIO, uma forma de assinalar esta data marcante, pois foi a 22 de julho de 1761 que este templo foi inaugurado.
Realizando a comunhão eclesial, o coro é poliédrico, com os membros a provirem de várias comunidades formando uma só voz sob a regência do Padre Marcos Alvim e a presença no órgão do Dr. Francisco Beato, organista residente.
Num tempo disruptivo, de dissidências e bipolaridades sem fim, é edificante ver esta conjugação, esta harmonia, tipificada até no desfile das lágrimas em todos os rostos.
No Santuário, forma-se uma fraternidade, em que o mais conhecido rapidamente se converte em irmão. É isto que prepara a festa e devia perdurar para lá da festa.
Os sorrisos limpos de fé e calor são um poderoso fator de transformação da vida. É bom que se valorize a Novena. E que se reflita: porque perdura, sem vacilar, há tantos séculos? Porque inocula tanta gratidão, tanta felicidade? Da Novena nunca nos afastaremos. Para o ano aqui estaremos!
SAS (Serviço de Apoio ao Santuário), in Voz de Lamego, ano 96/40, n.º 4865, de 9 de setembro de 2026



