Alguns dias passam tão depressa que quase não temos tempo de os viver. E, no entanto, são esses mesmos dias que permanecem mais tempo dentro de nós. Assim foi a Jornada Nacional da Juventude (Rejoice), em Lamego. Entre a alegria dos encontros, o silêncio da adoração, a graça da reconciliação e a força da Eucaristia, descobrimos que Deus nos estava a ensinar muito mais do que aquilo que o programa podia conter. Talvez por isso, ao regressar a casa, me tenha acompanhado uma frase de Santo Agostinho:
"O presente do passado é a memória; o presente do presente é a atenção; o presente do futuro é a esperança."
Há palavras que parecem escritas para certos momentos da nossa vida. Ao regressar do Rejoice, dei por mim a voltar, vezes sem conta, a esta reflexão de Santo Agostinho. Talvez porque a Jornada tenha sido, precisamente, um exercício de memória, de atenção e de esperança.
O presente do passado é a memória.
A memória tem um modo muito próprio de guardar as coisas. Esquece horários, percursos e programas, mas conserva aquilo que verdadeiramente nos marcou. É por isso que, ao recordar a Jornada, não regressamos primeiro aos lugares, mas às pessoas. Não regressamos aos acontecimentos, mas aos encontros. Não regressamos ao que fizemos, mas àquilo em que nos fomos tornando. Há memórias que apenas ganham sentido quando olhamos para elas à luz daquilo que aconteceu depois.
Recordar o Rejoice não é voltar a um fim de semana feliz. É voltar ao lugar onde Deus nos encontrou. Cada rosto, cada oração, cada silêncio e cada gesto de comunhão regressam hoje não como lembranças distantes, mas como sinais de uma graça que continua a trabalhar em nós.
A memória é, por isso, muito mais do que um álbum de fotografias. É o lugar onde reconhecemos que Deus foi escrevendo a nossa história muito antes de nós percebermos. Ao olhar para trás, compreendemos que nenhuma amizade construída, nenhum serviço prestado, nenhuma oração feita em conjunto foi insignificante. Tudo nos preparava, discretamente, para acolher o dom que receberíamos em Lamego.
O presente do presente é a atenção.
Durante aqueles dias, deixámos de ouvir o lema da Jornada para o começar a viver. "Membros de um só Corpo em Cristo" deixou de ser uma frase repetida nas celebrações e tornou-se uma realidade.
É certo que, no meio de centenas de jovens vindos de todo o país, experimentámos a beleza de pertencer a uma Igreja maior do que aquela que conhecemos todos os dias. Mas, curiosamente, foi no nosso pequeno Gotas d’Orvalho que o lema encontrou o seu significado mais profundo.
Percebemos que um corpo vive porque cada membro cuida do outro. E, quase sem nos apercebermos, começámos a viver assim. A alegria de um tornou-se a alegria de todos. O cansaço de um nunca foi carregado sozinho. As fragilidades deixaram de ser motivo de distância para se tornarem lugar de encontro. Durante aqueles dias, ninguém caminhou apenas por si.
Talvez tenha sido esse o maior milagre da Jornada. Não o de reunir centenas de jovens no mesmo lugar, mas o de nos ensinar a olhar uns para os outros com os olhos de Cristo. E, nesse olhar, descobrirmos que a comunhão não se constrói nos grandes momentos, mas na simplicidade de quem escolhe, todos os dias, caminhar lado a lado.
Talvez tenha sido essa a maior graça da Jornada: percebermos que Deus não nos chamou apenas a participar num encontro. Chamou-nos a sermos um só corpo na comunidade.
O presente do futuro é a esperança.
E agora, de volta às nossas rotinas conhecidas, resta a terceira dádiva e também a mais difícil de todas, porque ainda não a temos nas mãos. É apenas promessa.
É fácil ter esperança em Lamego, rodeados de um mar de jovens que a partilham connosco. Difícil é trazê-la para dentro de casa, para a sala de aula, para o trabalho, para o silêncio de um quarto onde a fé, por vezes, parece pequena demais para o mundo lá fora. É aí que a Jornada continua; não nas fotografias já partilhadas, mas na maneira como olhamos agora para quem passa por nós sem saber que também é membro do mesmo corpo.
Não voltámos diferentes. Voltámos, talvez, apenas com as mãos um pouco mais abertas, prontas para continuar a receber e a oferecer aquilo que em Lamego nos foi dado sem merecermos: memória para não esquecer quem fomos ali, atenção para continuar a ver Cristo em cada irmão, e esperança para acreditar que a dádiva, uma vez recebida, é capaz de permanecer em cada coração.
Trouxemos de Lamego a certeza de que nenhuma destas três prendas se guarda fechada numa gaveta. Vivem-se, ou perdem-se. E é essa, afinal, a única certeza que vale a pena levar connosco para os dias que ainda hão de vir!
Sofia Carvalho, in Voz de Lamego, ano 96/35, n.º 4860, de 29 de julho de 2026



