A devoção a Nossa Senhora da Lapa ultrapassa diversas gerações, há mais de quinhentos anos, ultrapassa territórios, em vários locais de Portugal, como Porto, Guimarães, Lisboa, Póvoa de Varzim, Vieira do Minho, Chaves, Ponte de Lima, Ponte da Barca, Vila Viçosa e tantos outros locais, capelas e igrejas, e muito difundida no Brasil.
Há duas grandes peregrinações anuais, a 10 de junho e a 15 de junho, havendo outras peregrinações como do Movimento da Mensagem de Fátima ou a Peregrinação do Minho. A peregrinação diocesana e anual de 10 de junho, como depois a de agosto, é precedida de uma novena, com diversos momentos de oração, reflexão, pregação, recitação do rosário, celebração da santa Missa a que acorrem muitos devotos. O dia da Peregrinação envolve, de uma forma mais próxima as zonas pastorais de Sernancelhe e de Moimenta da Beira, mas também de Vila Nova de Paiva ou de Castro Daire, com as paróquias a ostentarem a sua bandeira e cruz paroquiais, com uma adesão que continua a surpreender, faça sol e calor ou faça chuva e frio.
Manhã cedo, muitos peregrinos, oriundos das várias paróquias, a pé, mas também em carros particulares ou em autocarros, foram-se orientando para o Santuário, concentrando-se à volta da Igreja, a partir da qual se organizou a procissão de entrada, para o recinto das peregrinações, sob a presidência no nosso Bispo, D. António Couto, e com a concelebração de párocos, mas também de outros sacerdotes devotos de Nossa Senhora da Lapa.
D. António Couto, na homilia, partiu da liturgia da Palavra, fez-nos olhar sobretudo no Evangelho de são João, que nos aproxima da Cruz, junto da qual estão Maria e o discípulo amado, tal como neste dia estamos à sombra das belas cruzes paroquiais, que sinalizam bem a nossa fé e o amor de Deus que se expressa, em perfeição, na entrega de Jesus.
Depois das saudações protocolares, o Sr. Bispo adentrou-nos na Palavra de Deus. “O discípulo recebeu-a em sua casa. Hoje somos nós, os discípulos de Jesus, que recebemos Maria, nossa mãe, em nossa casa… Dizia Jesus na cruz para a sua mãe, que estava junto da cruz: ‘Mulher, eis o teu filho’. E depois disse ao discípulo: ‘Eis a tua mãe’. E a partir daquele momento, diz o texto, o discípulo recebeu-a em sua casa… Somos nós hoje que devemos acolher Maria, nossa mãe, aqui invocada como Senhora da Lapa, em nossa casa. Levá-la connosco”.
Prosseguindo, D. António sublinhou a necessidade de acolhermos para comunicarmos: “É necessário que acolhamos Maria no nosso coração, na nossa casa, que saibamos transmitir aos jovens, às crianças, às novas gerações que hão de vir, que saibamos transmitir Deus, que saibamos transmitir Jesus, que saibamos transmitir Maria. Notai, ainda não o disse, mas no Evangelho de João – o tal que só se pode compreender bem se nós tivermos a cabeça reclinada no peito de Jesus para sentir o pulsar do coração de Jesus, e se tivermos tido a graça de receber Maria por mãe – só assim é que nós podemos entender o Evangelho de São João, fala diversas vezes de Maria, mas nunca diz o nome. Nunca diz Maria, diz sempre a sua mãe, a mãe de Jesus.
Como hoje, de resto, ouvimos neste bocadinho de texto: ‘junto da cruz estava lá a sua mãe’, e depois Jesus diz à sua mãe: ‘mulher’. Não diz Maria, nunca em nenhum caso surge no Evangelho de João o nome de Maria… A identidade de Maria não é chamar-se Maria, é ser a mãe de Jesus”.
O que se diz de Maria, cuja identidade está na relação com Jesus, mãe, assim se diz do discípulo que Jesus amava, acentua-se e diz-se, não o nome, mas a relação com Jesus. “Eu e tu, meu irmão e minha irmã, a nossa identidade verdadeira é a nossa ligação, a nossa relação com Jesus. Aí reside a nossa verdadeira identidade. E, portanto, se nós hoje não acolhermos Maria em nossa casa, no nosso coração, se não formos indicados por Jesus e se não formos sinalizadores de Jesus, indicadores de Jesus, indicadores de Deus, indicadores de Maria, andamos por aí sem identidade, que é mais ou menos como anda o nosso mundo de hoje, que anda por aí aos empurrões”.
O desafio de D. António é claro: “Meus irmãos e irmãs, queridos irmãos e irmãs, sede neste mundo verdadeiros sinalizadores e indicadores dessas realidades que nos habitam e que são sempre as melhores realidades da nossa vida que podemos transmitir. Verdadeiros herdeiros, constituídos segundo São Paulo, hoje, filhos de Deus e, portanto, herdeiros de Deus. Não herdeiros de grandes fortunas materiais, de muito dinheiro e de muitos campos e de muitas quintas e de muitas casas, mas herdeiros da paz, da alegria, do amor, da justiça. É essa herança que nós acolhemos, que por graça de Deus nos dá e que devemos partilhar com todos aqueles que encontrarmos pelos caminhos”.
Na parte final da Eucaristia, o reitor do Santuário e pároco de Quintela da Lapa, onde está sediado o Santuário, agradeceu a presença de todos, a colaboração de muitos, o testemunho de fé das centenas de pessoas presentes, a amizade e proximidade do Sr. Bispo, D. António Couto, solícito na presença e na palavra que nos torna confidentes da Palavra de Deus.
Concluamos com a prece de D. António no final da homilia: “Que a Senhora da Lapa caminhe connosco, porque hoje nós fomos convidados a recebê-la em nossa casa, no nosso coração. Amém”.
in Voz de Lamego, ano 96/30, n.º 4855, de 17 de junho de 2026



