1. Mãe de Deus, Senhora da alegria, Mãe igual ao dia, Maria. A primeira página do ano é toda tua, Mulher do sol, das estrelas e da lua, Rainha da Paz, Aurora de Luz, Estrela matutina, Mãe de Jesus e também minha, Senhora de janeiro, do Dia primeiro e do Ano inteiro.
2. O calendário litúrgico assinala hoje o oitavo dia do Natal do Senhor. E a Lei de Deus mandava que nesse oitavo dia se celebrasse a festa da circuncisão, que incorporava o recém-nascido no povo da Aliança, acompanhada da festa da dádiva do Nome, neste caso, Jesus, como o anjo tinha predito aquando da Anunciação (Lc 1,31). O calendário civil assinala Hoje o primeiro Dia do Ano de 2026, sendo o primeiro Dia do Ano tradicionalmente designado como «Dia de Ano Bom», pois todos desejamos que o ano inteiro seja «bom», isto é, visto e guiado pelo olhar bom de Deus, que vê sempre bom, belo e bem, como se lê por sete vezes em Génesis 1: «E Deus viu que era bom!» (Gn 1,4.10.12.18.21.25.31). Neste Dia celebramos sempre a Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, a que anda associado também, desde 1968, o Dia Mundial da Paz, que tem Hoje a sua 59.ª edição.
3. A figura que enche este Dia, e que motiva a nossa Alegria, é, portanto, a figura de Maria, na sua fisionomia mais alta, a de Mãe de Deus, como foi solenemente proclamada no Concílio de Éfeso, no ano 431, mas já assim luminosamente desenhada nas páginas do Novo Testamento, por exemplo, nos lábios de Isabel, quando responde à saudação de Maria com aquele grito grande: «De onde me é dado que venha ter comigo a “Mãe do meu Senhor?”» (Lc 1,43), que ainda hoje ecoa nos nossos lábios no início de cada «Santa Maria, Mãe de Deus…», como aprendemos, em pequeninos, no seio das nossas famílias.
4. É fácil verificar que a liturgia deste Dia apresenta três marcadores importantes: 1) a figura de Maria na sua fisionomia mais alta, a de Mãe de Deus; 2) o facto de estarmos a viver o primeiro Dia do Ano Civil; 3) e ainda o facto deste Dia, o primeiro do Ano, estar assinalado também, desde 1968, por iniciativa do Papa S. Paulo VI, como Dia Mundial da Paz.
5. E é precisamente por ser o primeiro Dia do Ano e também o Dia Mundial da Paz, que tivemos Hoje a graça de escutar a primeira lição da liturgia deste dia, extraída do Livro dos Números, que faz descer sobre todos nós e sobre todos os dias deste novo ano a bênção de Deus, assim solenemente formulada e conhecida como “bênção sacerdotal”: «Que o Senhor nos abençoe e nos guarde./ Que o Senhor faça brilhar sobre nós o seu rosto e nos seja favorável./ Que o Senhor dirija para nós o seu olhar e nos conceda a paz» (Nm 6,24-26). É fácil de entender que esta bênção consiste em pôr o Nome de Deus, três vezes repetido (o Senhor/, o Senhor/, o Senhor), sobre todos nós, como nossa proteção.
6. O Papa Leão XIV propôs para este 59.º Dia Mundial da Paz o lema: «Uma Paz desarmada e desarmante», assente na habitual saudação do Senhor Ressuscitado aos seus discípulos: «A Paz esteja convosco!». Esta Paz, não conquistada, mas a todos dada pelo Ressuscitado não consiste apenas na ausência de guerra, mas é medida mais alta da Alegria, da Prosperidade e da Felicidade, um cesto cheio de todos os bens materiais e espirituais! Se esta é a saudação que o Ressuscitado repetidamente nos dirige, então não nos resta senão recebê-la e deixá-la habitar em nós, e semeá-la neste mundo tão cheio de bombas, de lágrimas e de sangue! Portanto, sejamos homens e mulheres de Paz, ainda que, por vezes, rodeados de sangue e lágrimas. Mas nós também devemos saber que as lágrimas são como as sementes. São férteis e dão fruto. Ao ritmo do Salmo 126: «Os que semeiam com lágrimas/ recolhem com alegria./ À ida vão a chorar,/ levando as sementes;/ à vinda, vêm a cantar,/ trazendo os molhos de espigas».
7. Atenção ainda, amados irmãos e irmãs, a este suspiro de Jesus sobre Jerusalém, que se pode ler no texto de Lc 19,41-44: «Jesus viu a cidade de Jerusalém, e chorou sobre ela, dizendo: “Ah! Se neste dia conhecesses a mensagem da Paz! Agora, porém, está escondido aos teus olhos. Dias virão em que os teus inimigos te cercarão com trincheiras, e te apertarão por todos os lados. Deitar-te-ão por terra, a ti e aos teus filhos, e não deixarão em ti pedra sobre pedra, porque não conheceste o tempo em que foste visitada [por Deus!]”». Suspiro semelhante de Jesus se pode ler em Mt 23,37: «Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados, quantas vezes eu quis reunir os teus filhos como a galinha recolhe os seus pintainhos debaixo das suas asas, mas tu não quiseste»!
8. Fica claro: Deus quer. Mas nós temos-lhe voltado as costas vezes sem conta. Insisto: Deus quer. E clarifico: o que é divino obtém-se pela oração. É por isso que junto aqui duas notas: 1) estamos a celebrar o Jubileu dos 250 anos da última Dedicação da nossa Catedral: faço votos de que este tempo jubilar, iniciado em 30 de novembro do ano transato (2025) e se prolongará até 30 de novembro do ano em curso (2026), seja sobretudo um tempo de graça para nos reunirmos como filhos e irmãos e rezarmos contemplando e implorando a bondade do nosso Deus; 2) abriremos hoje, já a seguir a esta celebração eucarística, um tempo e um lugar dedicados à Adoração Perpétua: o tempo esperemos que seja a perder de vista, que se apegue e congregue sucessivas gerações; o lugar será a Capela do Espírito Santo, no coração da nossa cidade. Lembro uma cidadezinha no sul da Alemanha, perto de Friburgo, em que as pessoas vêm fazendo adoração perpétua festiva ininterrupta desde o começo da II Guerra Mundial. Ainda hoje continuam com o mesmo entusiasmo e o mesmo amor.
9. Que seja, e pode ser, Deus o quer, e nós também podemos querer, um Ano Bom, cheio de Paz, de Pão e de Amor para todos os irmãos que Deus nos deu! E que Santa Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe, nos abençoe também. Amém!
Igreja Catedral de Lamego, 01 de janeiro de 2026, Homilia na Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, e 59.º Dia Mundial da Paz.
+ António, vosso bispo e irmão



