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Entrevista com o Pe. Diamantino Alvaíde, Coordenador Diocesano Pastoral

O Pe. Diamantino José Alvaíde Duarte nasceu em 1979, no Sarzedo, concelho de Moimenta da Beira, da diocese de Lamego. Entrou para o Seminário de Lamego em 1998. Licenciou-se em Teologia no Instituto Superior de Teologia – Beiras e Douro, da UCP. Foi ordenado presbítero a 30 julho de 2005. De 2005 a 2010 foi pároco em diversas paróquias dos concelhos de Vila Nova de Foz Côa e Mêda. De 2010 a 2015 fez estudos de especialização em Teologia Pastoral, na Pontifícia Universidade Lateranense, em Roma. A dissertação de doutoramento foi publicada neste verão. No ano de 2015 assumiu a paroquialidade de Moimenta da Beira e de Cabaços, e posteriormente de Sendim. De 2016 a 2018 foi presidente da Comissão para a Missão e Nova Evangelização. Desde 2018 é o Coordenador Diocesano da Pastoral. Foi também nomeado como responsável diocesano do Sínodo dos Bispos, na fase diocesana.
A Voz de Lamego achou pertinente entrevista-lo no âmbito da coordenação pastoral da diocese, mas também do recente livro publicado, sobre a Igreja, sobre as adversidades próprias da pandemia, e sobre o processo sinodal da Igreja que está em curso.

Voz de Lamego – O que é que significa a coordenação pastoral da Diocese? Âmbitos, conteúdo, prioridades? Maiores dificuldades?

A coordenação pastoral é a tentativa contínua de estruturar o agir eclesial, de maneira a que o anúncio do Evangelho e as demais obrigações da Igreja atinjam o maior número de pessoas possível. Para isso, é preciso coordenar o esforço e o trabalho de todas as estruturas pastorais existentes: paróquias, arciprestados, comissões, departamentos, movimentos, etc., e definir meios e métodos, percursos e processos que conduzam a determinadas metas. A prioridade é sempre, como diz muitas vezes o nosso Bispo, que a ação da Igreja não seja meramente programática (feita de atividades pontuais ou de acontecimentos episódicos), mas ininterruptamente paradigmática (um agir evangelizador permanente). As dificuldades mais notórias são a heterogeneidade das realidades paroquiais do território diocesano e o ritmo de atuação diferenciado dos agentes de pastoral, a começar pelos que tem mais responsabilidade.

VL – Como é que se conjuga a coordenação pastoral, com a necessidade de usar tempo, fazer deslocações, para reuniões ou para a realização das atividades, com a paroquialidade, sendo que és pároco de Moimenta da Beira, Cabaços e Sendim?

É preciso alguma ginástica, a vários níveis. A gente das minhas paróquias vai sabendo do meu compromisso na coordenação pastoral da diocese, e compreendem que, algumas vezes, eu não esteja tão disponível quanto era desejável. Aceitam uma ou outra vez que se alterem horários e desculpam misericordiosamente as minhas muitas falhas. As reuniões em Lamego são realmente frequentes. Essas deslocações contínuas são exigentes, além de outros motivos, pelo imenso tempo que se gasta nas viagens.

VL – Seres pároco ajuda a “testar” as propostas pastorais ou a fazer uma melhor avaliação das mesmas?

Sim. Ajuda bastante. E ajuda exatamente por essa razão. Das minhas paróquias consigo fazer laboratório e termómetro. Nelas consigo perceber o que realmente funciona e resulta bem. O que é dificuldade e desgaste. O que emperra a engrenagem pastoral. Permitem-me perceber o calor e o ardor dos corações e das almas. Através delas percebo a temperatura eclesial e espiritual que tem e a que pode chegar a diocese. Isto porque, nas três paróquias que tenho, tenho duas realidades bastante diferentes: uma delas é bastante grande (para o geral das paróquias da diocese de Lamego) e com caraterísticas urbanas. E as outras são bastante mais pequenas (como a grande maioria das paróquias da nossa diocese) e com caraterísticas mais rurais. 

VL – Vamos para o terceiro plano pastoral diocesano afetado diretamente pela pandemia.  2019-2020 ficou a meio; 2020-2021 foi elaborado com a expetativa de que regressaríamos a uma certa normalidade, o que não se veio a verificar. Iniciámos há pouco um novo ano pastoral com algumas contingências e incertezas. Como é que tem sido lidar com isso?

Não tem sido propriamente fácil. É viver numa permanente incerteza, e isso desgasta bastante. É preciso ter as coisas preparadas, ao início, porque a situação pode normalizar e nós precisamos de ter suporte. Mas, por outro lado, é ver que quase tudo o que se preparou valeu de pouco ou nada, porque a pandemia impediu de o realizar. E, além disso, é preciso gerir emoções, reações e opiniões. Há sempre quem ache que se devia fazer mais, porque já temos condições. Há sempre quem seja da opinião de que não se devia fazer nada, porque o risco continua elevado. É bastante exigente.

VL – Com o alívio de algumas medidas, com o regresso das celebrações comunitárias, depois de dois momentos de confinamento geral, como tem sido o regresso às atividades presenciais? Expetativas? Ganhou-se alguma coisa com as tecnologias, com as iniciativas digitais? Que é que se perdeu?

Muito lento. Em número bastante reduzido. Ainda por medo ou por mero comodismo, as pessoas não aparecem como antes. Quero acreditar que vamos melhorar e voltar a ter, pelo menos, as que tínhamos. Mas precisamos de investir bastante, pastoralmente. As novas tecnologias foram, sem dúvida, um excelente apoio. Conseguiu-se chegar a muita gente, quando não era possível juntarmo-nos. Mas ao longo do tempo foram perdendo força. E, no final do segundo confinamento, a adesão ao que se fazia pelas plataformas digitais era já bastante reduzida. O que se ganhou foi a consciência de que o Cristianismo é uma religião de presença. Precisamos do outro ao nosso lado: do toque, da voz, do afeto, do olhar, da expressão facial, etc.. O povo só é povo, junto.   

VL – Foi publicado há pouco tempo o livro que resulta da tua dissertação de doutoramento, na qual sugeres uma pastoral integrada, a concretizar na nossa Diocese de Lamego. Em que consiste esta pastoral de conjunto?

Esta pastoral tem dois pilares basilares de sustentação: a antropologia teológica e a eclesiologia de comunhão. A sua lógica de atuação deriva inteiramente do elementar “princípio da Incarnação” (Isto é, a ação eclesial desenvolve-se sempre num espaço e num tempo muito concretos e reais, com contornos e características muito próprias de cada época e de cada lugar). Assim, a pastoral integrada pretende, por um lado, abandonar a ideia de «autossuficiência» que cada paróquia, movimento, departamento ou setor da pastoral, ou mesmo diocese, advoga para si próprio. E, por outro lado, apostar tudo na racionalização de recursos, na centralização de projetos, na partilha de propostas e soluções, na circulação de ideias e experiências, na valorização do âmbito existencial em detrimento da divisão territorial, no envolvimento sincronizado de todos os batizados, de todos os grupos etários e de todos os agentes de formação cristã.

VL – Há um decréscimo da população no país, consequentemente também na nossa diocese, como se verifica pelos dados, ainda parciais, dos Censos 2021. Outra das preocupações é o índice de envelhecimento. Dificuldades e potencialidades nas propostas que são feitas para cada ano pastoral e concretamente esta proposta pastoral e integral?

A tendência atual da desertificação e do envelhecimento demográfico é uma realidade com que temos de nos habituar a viver e para a qual temos de nos preparar cada vez melhor. Sabemos que estes fenómenos vão ter consequências bastante nefastas nas nossas comunidades, e esta tendência não vai inverter-se. Portanto, sabendo que vamos ser cada vez menos e mais limitados, precisamos de estar mais unidos, trabalhar mais em rede, rentabilizar melhor os recursos humanos e materiais, e propor ações transversais a todas as idades em simultâneo. Isto é pastoral integrada. Não é fácil, mas é perfeitamente possível.

VL – Na Diocese de Lamego, conforme também este estudo, em livro, há realidades paroquiais/pastorais heterogéneas, muito diferentes entre si, sobretudo entre as paróquias que se situam a oriente da Diocese e àquelas que se situam mais ocidente. Paróquias de Lamego, Resende e Cinfães têm uma densidade populacional bastante elevada, com muitos jovens e crianças. Mas há paróquias em que não há uma criança ou um jovem. Como elaborar um plano pastoral para toda a diocese? Ou como trabalhar uma pastoral integrada?

Um plano pastoral não pode pretender mais do que estabelecer um conjunto de linhas orientadoras daquilo que será o agir eclesial de uma determinada Igreja Particular, no caso dos planos diocesanos. É verdade que, o ponto de partida, é sempre a realidade concreta, com tudo aquilo que de bom e menos bom a configura. Quando essa realidade é díspar como a nossa, é necessário que o plano seja ainda mais geral, sem se tornar abstrato. Que seja suficientemente abrangente e flexível, ao ponto de poder ser adequado a zonas mais ou populosas e praticável em paróquias mais rejuvenescidas ou mais envelhecidas, demograficamente. Daí a necessidade de que a pastoral seja integrada, vista e pensada como um todo. E não segmentada ou subdividida em setores diferenciados.

VL – Qual é o centro da pastoral integrada? Que a diferencia da pastoral setorial? O que significa eclesiologia de comunhão.

O centro da pastoral integrada é a pessoa. A pessoa na integralidade do seu todo, e no todo das suas relações. Enquanto a pastoral setorial pensa a pessoa “encaixada” numa determinada faixa etária da sua vida e/ou num determinado âmbito da sua ação ordinária, a pastoral integrada pensa a pessoa na lógica da comunhão. Todas as idades e todos âmbitos da vida humana em relação permanente e dependência recíproca. A eclesiologia de comunhão é isto, mas à escala eclesial universal. Inspirada e alimentada pela comunhão trinitária, a Igreja vive da relação profunda entre todos, de todas as idades e condições, implicando e transformando todos os âmbitos da vida humana. Arriscaria mesmo dizer – neste período de caminhada sinodal – que eclesiologia de comunhão e sinodalidade são sinónimos.

VL – Um dos aspetos sublinhados no teu livro é a pastoral integrada relacionada com a pastoral familiar, que deveria ser transversal a todas as iniciativas pastorais. Queres clarificar?

Usar a expressão “pastoral familiar” para significar um setor específico da pastoral é bastante equívoco e redutor. Porque toda a pastoral é necessariamente familiar. Por exemplo: a catequese, enquanto trabalho com as crianças, é a pastoral com aqueles que são filhos de uns e netos de outros. A pastoral da terceira idade, enquanto ação eclesial com os idosos, é a pastoral com aqueles que são pais de uns e avós de outros. E assim sucessivamente. Ou seja, não é possível acontecer pastoral (em qualquer setor) sem que a família esteja, de alguma forma, implicada e presente. Quer façamos pastoral juvenil, vocacional, catequética, prisional, etc., estamos a fazer com a família e para a família.

VL – Entrámos no novo ano pastoral. Quais as linhas, orientações, iniciativas que destacarias?

Destacaria três orientações e três iniciativas, mais relevantes. As três linhas orientadoras: 1) A necessidade de retomarmos a ação eclesial presencial, em todas as frentes. Daí o lema “Levantai-vos! Vamos!”. 2) A caminhada sinodal que somos convidados a fazer até abril de 2022, com todas as dioceses do mundo. 3) A preparação próxima da Jornada Mundial da Juventude 2023. Das iniciativas destaco: 1) As visitas de alguns departamentos da pastoral aos arciprestados da nossa diocese. 2) O Dia Mundial das Famílias, em comunhão com Roma, em junho de 2022. 3) O Dia da Família Diocesana, em que receberemos os símbolos da JMJ, que vão percorrer a diocese.

VL – Será possível recuperar o tempo perdido durante estes dois anos de pandemia?

Não diria que foi tempo perdido. Digo, na minha dissertação, que os períodos de crise são altamente importantes para a Igreja, a nível de purificação, unificação e redefinição de prioridades. Esta pandemia, não sendo especificamente um período de crise, teve ou tem mais ou menos o mesmo efeito.

VL – A carta Pastoral do nosso Bispo é, a cada ano, a referência, a base, para o plano pastoral e para algumas iniciativas concretas. Com brevidade, que aspetos da carta para este ano pastoral, 2021-2022, destacarias?

Para utilizar uma simbologia que vem proposta para a Caminhada de Advento deste ano, eu diria que a Carta Pastoral é, em cada ano, a Rosa dos Ventos do plano pastoral e das atividades que este propõe. Saliento três aspetos que considero mais relevantes: a) o insistente apelo a estarmos Envolvidos, Revolvidos, Implicados Comprometidos no caminho de Jesus; b) o alerta para o facto de não sermos herdeiros ou meros continuadores da missão do Mestre, mas sim missionários dentro da Sua própria e atual missão, como aconteceu com os Doze; c) o convite calorosamente expressivo e entusiasticamente desafiador que D. António deixa a todas as pessoas, organismos e estruturas pastorais da nossa diocese, para a luta e para a labuta, que é de todos.

VL – A Igreja deu início ao Sínodo (2021-2023), que procurará auscultar a Igreja, no seu conjunto, localmente, em todas as dioceses. No Vaticano, o Papa inaugurou o Sínodo no passado dia 9 de outubro, na nossa diocese, como em muitas outras, iniciou no dia 17 de outubro. Tu, com a Equipa da Coordenação Pastoral, coordenarás e conjugarás, a nível diocesano, tudo o que tem a ver com este Sínodo.
Para percebermos melhor, o que significa um Sínodo, e este Sínodo em concreto? Que expetativas tens? O que se pode esperar do Sínodo?

O Sínodo, conforme hoje o concebemos, é uma assembleia alargada de bispos de diversas regiões (e às vezes diversas Igrejas) e peritos escolhidos pelo Papa, que se reúnem ordinária ou extraordinariamente, com o objetivo de aconselhar o Romano Pontífice em assuntos de especial importância e oportunidade para o governo pastoral da Igreja. Foi o Papa Paulo VI que, em 1965, quase ao terminar o Concilio Vaticano II, e resultante do mesmo, criou o Sínodo dos Bispos. É o Papa, no exercício das suas funções, que convoca o Sínodo e decide o tema a tratar. Desta vez, o Papa Francisco entendeu que era oportuno tratar o tema da Sinodalidade. Para tal, e dada a suma importância desse assunto, quis o Santo Padre alargar a preparação do próximo Sínodo dos Bispos a todo o povo de Deus. Pede, por isso e para isso, que se faça uma auscultação alargada da opinião e vivência do maior número de fiéis, possível. É esse trabalho que será feito, nos próximos cinco meses, na nossa e em todas as dioceses. Depois de recolhidas essas opiniões e tratadas essas informações, a nível diocesano e a nível nacional, serão enviadas ao Papa, para servirem de ponto de partida para os trabalhos da Assembleia Sinodal, em Roma, em outubro de 2023.
Tenho boas expectativas a respeito deste sínodo. O assunto é bastante pertinente. A envolvência de todo o povo de Deus parece um fator muitíssimo enriquecedor e determinante para a discussão e documento finais.
Gosto muito da definição que o nosso Bispo dá de Sinodalidade: “É a própria Igreja a fazer-se”. É a Igreja, na sua essência, a acontecer em tempo e espaço reais. Este Sínodo vai permitir (ou deveria permitir) perceber se a forma como a Igreja hoje se está a fazer é ou não a mais fiel à sua natureza e identidade. Quero com isto dizer que, aquilo que em meu entender se pode esperar deste Sínodo, é que obrigue a Igreja a redirecionar-se. Ou seja, a ajustar e a afinar a Sua rota de acordo com a bússola de Deus.

 

in Voz de Lamego, ano 91/48, n.º 4630, 27 de outubro de 2021