Previous Next

Entrevista com Dr. Manuel Cordeiro, Presidente da Câmara Municipal de São João da Pesqueira

São João da Pesqueira encontra-se no coração da primeira região vinícola demarcada do mundo, a Região Demarcada do Douro, onde nasce o famoso Vinho do Porto e vinhos de mesa de prestígio incomparável. É limitado a norte pelo rio Douro, Vila Nova de Foz Côa a leste, a ocidente Tabuaço, Penedono a sudeste e Sernancelhe a sudoeste. O concelho abrange uma área total aproximada de 266,5km2, distribuído por 11 freguesias. Preside ao Município o Dr. Manuel Cordeiro que entrevistamos para a Voz de Lamego.
Manuel António Natário Cordeiro nasceu na freguesia de Ervedosa do Douro, concelho de S. João da Pesqueira, em 4 de janeiro de 1979. É licenciado em Direito, Ciências Jurídico-Políticas, pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra (Curso Jurídico 1998-2003). Realizou o estágio na Ordem dos Advogados, Delegações de Coimbra e do Porto, entre 2003 e 2004. Exerceu advocacia entre 2004 e 2017, interrompida pelo exercício de funções autárquicas. Foi advogado no Escritório de Advogados Vieira Conde e Jerónimo Duarte em Coimbra entre 2003 e 2005, e posteriormente até 2017 em escritório próprio em São João da Pesqueira.
É Viticultor.
Foi vereador sem pelouros na Câmara Municipal de São João da Pesqueira, entre 2005 e 2009; Presidente da Assembleia Municipal, entre 2009 e 2013; foi vereador sem pelouros, entre 2013 e 2017 e é atualmente, desde 2017, Presidente da Câmara.

Voz de Lamego – Para alguém que visita o concelho, como o apresentaria? Que caraterísticas distintivas tem este território, do ponto de vista económico e empresarial, cultural e patrimonial?

Apresentar o concelho de S. João da Pesqueira é, de facto, um motivo de orgulho. Na verdade, o concelho de S. João da Pesqueira é o concelho que detém no Alto Douro Vinhateiro a maior área classificada como património mundial pela Unesco (20%). É, também, o maior produtor de Vinho do Porto e Vinhos DOC. O concelho situa-se exatamente no centro da Região Demarcada do Douro, a que nós chamamos “Coração do Douro”. Aqui se encontram as quintas mais emblemáticas de todas as empresas exportadoras.
Do ponto de vista paisagístico é também um território com muitas valias e uma diversidade significativa, que inclui uma ampla frente com o Rio Douro e uma imensidão de miradouros de cortar a respiração, como é o caso dos miradouros de Frei Estevão, da Nossa Senhora de Lurdes, do Ermo ou de Vargelas, entre tantos outros.
Por todo o concelho existe um património edificado muito rico de natureza religiosa e cultural, destacando-se nomeadamente a Igreja matriz de Trevões, que é monumento nacional, ou o Museu do Vinho. Grande parte da atividade económica centra-se na viticultura, havendo ainda com algum significado a cultura da oliveira e frutos secos. Começa a ser significativo o cultivo de pomares, nomeadamente de maçã, nas freguesias no sul do concelho. Começa a ganhar muito significado, também, a exploração da atividade turística, nomeadamente o enoturismo, para o qual o concelho tem condições únicas. A cereja no topo do bolo, são de facto as pessoas deste concelho, as suas qualidades humanas no que respeita à empatia e à enorme capacidade de trabalho.

VL – Em termos culturais em que patamar está o concelho?

Na cultura procurámos em primeiro lugar apoiar as coletividades locais, como Bandas Filarmónicas, grupos de música tradicional, Associações culturais, Escola de música, escola de ballet, atividades no Museu do Vinho, como exposições de fotografia, pintura, apresentação de livros, espetáculos musicais diversos, ou o projeto Pesqueira Educa que interage com pais e encarregados de educação em matéria educacional e cultural, concerto de natal, atividades  da  UVA com o coro da Universidade sénior, atividades da Biblioteca Municipal dedicada a vários públicos.
A Bibliomóvel que através de um programa concelhio faz distribuição e recolhas de livros para leitura, pelos munícipes.
O cineteatro foi reaberto, com a aquisição de equipamento de projeção tecnicamente atualizado, com uma programação regular de filmes e outros espetáculos. Estabelecemos um protocolo com o Grupo de Teatro Filandorra, com um programa detalhado de peças de teatro destinado aos alunos e público em geral. Tivemos também em palco teatros de revista. Recentemente estabelecemos um protocolo com a UTAD, que inclui conteúdos e iniciativas de caráter cultural. Obviamente a pandemia veio prejudicar ou interromper mesmo em certas situações, esta dinâmica, que desejamos poder reatar até ao fim do corrente ano, assim as condições sanitárias o permitam.

VL – A menos de um ano do fim do atual mandato autárquico, que balanço faz do trabalho realizado?

Iniciamos este mandato com uma enorme vontade de fazer e dinâmica, pese embora esta pandemia a meio do mandato tenha vindo condicionar de alguma maneira o exercício que vínhamos a desenvolver. Faço, porém, um balanço positivo do desempenho do executivo. Focando-me apenas nas realizações com mais significado e sem pretender ser exaustivo, o reequilíbrio financeiro das contas do Município que foi alcançado, com a negociação da divida às Aguas do Norte(4.MEuros - de referir que a Autarquia não pagou água em Alta durante oito anos), desde a recuperação da Escola Profissional (em situação de rotura eminente), o impacto do aumento dos custos para a regularização dos trabalhadores com vínculos  precários, e a realização de obras e investimentos bastante relevantes, sem agravar o passivo da Autarquia, foi seguramente a realização mais significativa deste mandato.
O concelho tornou-se mais conhecido ao nível do país, e essa notoriedade estava há um ano atrás a ter retorno significativo no aumento de turistas.
A organização da melhor Vindouro de sempre, como a feira mais antiga e de referência na Região, orgulha-nos também. Nem tudo foram realizações e haverá um ou outro assunto que não teve a resposta que esperávamos por parte da Administração Central, com especial ênfase na questão da EN 222, que não desistimos de ver no mínimo significativamente melhorada a médio prazo. Já a EN 222-3, cujo processo encontramos nas IP, transitou depois de ultrapassada toda a   burocrática de estudos, pareceres e vistos, está já no Ministério das Finanças (secretaria de Estado do Orçamento), para deferimento. A UCC, outro compromisso que temos, está mais próximo de ser implementada, nomeadamente na sequência da transferência de competências em matéria de Saúde, recentemente assinada entre a Autarquia e o Ministério da Saúde. A obra das Bateiras, no âmbito do PROVERE, como a grande porta de entrada no concelho, será iniciada a curto prazo. Nenhum dos compromissos que assumimos relativamente a estes dossiers com maior carga burocrática e financeira, se encontram como os encontrámos. Todos eles, sem qualquer exceção conheceram avanços significativos no sentido da sua concretização. Não desistimos de nenhum.

VL – Que mensagem de esperança e de estímulo gostaria de transmitir aos seus munícipes para este novo ano?

Vivemos tempos que nos preocupam e condicionam o dia a dia, entre o medo e a esperança, entre a prevenção e a espera, mas também prosseguindo com as atividades profissionais nos moldes possíveis, nomeadamente na agricultura, atividade que ocupa grande parte dos nossos munícipes.
O município está atento ao evoluir da situação, atuando proactivamente e em permanente articulação com os serviços de saúde, IPSS e população em geral.
Uma palavra de agradecimento a todos os envolvidos nesta tarefa de combate e prevenção à pandemia, nomeadamente trabalhadores das IPSS, Bombeiros, GNR, pessoal médico, enfermeiros e auxiliares, técnicos do município, que têm sido incansáveis e generosos neste contexto tão difícil extensivos à nossa Comunidade, que tem adotado na sua generalidade os procedimentos necessários, o que de certa maneira se refletiu nos números apresentados ao longo de quase um ano que esta crise já leva.
A mensagem que quero deixar, para além do agradecimento por todo este esforço conjunto, é a da absoluta necessidade de continuar a cumprir com rigor todas as regras sanitárias, de modo a podermos ultrapassar esta crise o mais rapidamente possível.
Partilho também   com os nossos munícipes uma nota de otimismo, na minha convicção, de que em breve, quer individual, quer coletivamente, grandes momentos e realizações nos esperam no futuro.
Rapidamente, retomaremos o curso das nossas vidas, afastado que seja este inimigo, na certeza de que colocaremos logo que nos seja possível, o melhor de nós no retorno à normalidade.

 

in Voz de Lamego, ano 91/12, n.º 4594, 2 de fevereiro de 2021