O Auditório do Museu Diocesano de Lamego acolheu a Conferência Magnifica Humanitas, um encontro aberto à comunidade e coorganizado pela Comissão Diocesana Justiça e Paz da Diocese de Lamego e pela Universidade Politécnica de Viseu. O evento tornou-se um espaço de diálogo vivo, de escuta mútua e de discernimento sobre o lugar da pessoa humana num tempo marcado pela velocidade tecnológica, pela complexidade social e pela necessidade urgente de responsabilidade ética.
A primeira intervenção esteve a cargo da Professora Isabel Allegro de Magalhães, via teleconferência, que apresentou uma análise clara e cativante da encíclica do Papa Leão XIV. Em poucos minutos percorreu os principais eixos da Magnifica Humanitas, enquadrando-os à luz da tradição filosófica, da reflexão social e da espiritualidade cristã.
O Papa, recordou, não centra o documento na tecnologia ou na Inteligência Artificial, mas na humanização do progresso e na responsabilidade social da Igreja. Propõe caminhos para todos - cristãos, educadores, decisores políticos - convidando a “ouvir” e a “sentir” o Evangelho como critério de discernimento.
A Encíclica afirma que nenhuma máquina poderá substituir a “magnífica humanidade” (art. 16), feita de consciência, emoções, responsabilidade pelo outro, misericórdia, perdão e cuidado pela Casa Comum (art. 114). Leão XIV apresenta ainda dois paradigmas para pensar o futuro: a Torre de Babel, símbolo do orgulho humano que pretende bastar-se a si próprio, e a reconstrução de Jerusalém, com Neemias, que aponta para uma civilização fundada no amor e não no poder - uma sabedoria que o progresso técnico-científico, por si só, não garante.
Seguiu-se o testemunho de José Esteves, da Paróquia de Duas Igrejas, no Arciprestado de Vila Verde, que partilhou o seu encontro espiritual com Carlo Acutis. Relatou como esse encontro transformou uma aldeia minhota num ponto de peregrinação, ao tornar-se a primeira paróquia a assumir o “Santo Millennial” como padroeiro. A igreja paroquial, onde está presente uma relíquia de primeiro grau do “Santo das calças de ganga”, recebe visitantes de todas as idades e geografias. Durante a conferência esteve exposta uma imagem peregrina e uma relíquia de segundo grau, que suscitaram momentos de oração e grande devoção.
O Professor Romeu Sequeira encerrou o encontro com uma reflexão sobre o impacto da Inteligência Artificial no quotidiano. Sublinhou que a IA está já presente em grande parte das nossas atividades: nas pesquisas que fazemos, nas rotas que seguimos, nas sugestões de locais a visitar ou até como assistente digital - quase como “o chefe do nosso gabinete”.
Afirmou que a IA pode ser uma aliada no combate à solidão, mas nunca substituirá o contacto humano. “Somos seres sociais e comunitários. A tecnologia ajuda; a presença humana importa.
Na parte de perguntas e respostas, muito participada, o Sr. Vigário-Geral, Cónego João Carlos Morgado, foi desafiado a explicar o significado das relíquias de primeiro e de segundo grau. A Inteligência Artificial foi até chamada a intervir e testada em direto.
Uma relíquia de primeiro grau é aquela que provém diretamente do corpo do santo - no caso de Duas Igrejas, trata-se de um cabelo de Carlo Acutis.
Uma relíquia de segundo grau corresponde a um objeto que pertenceu ao santo ou que esteve em contacto direto e prolongado com ele - durante a conferência esteve exposto um fragmento de uma camisola interior usada por Carlo Acutis.
O encontro terminou com um apelo à vivência concreta da mensagem de esperança da encíclica Magnifica Humanitas e à espiritualidade simples, alegre e profundamente eucarística de Carlo Acutis, que continua a inspirar tantos.
António Lucena, in Voz de Lamego, ano 96/48, n.º 4873, de 4 de novembro de 2026



