No IV Domingo de maio, o Santuário de Santa Maria de Cárquere, Padroeira do Concelho de Resende, voltou a acolher centenas de fiéis oriundos das diversas paróquias do concelho, naquela que continua a ser uma das mais significativas manifestações de fé e unidade pastoral das gentes resendenses.
A tradicional peregrinação anual constituiu, mais uma vez, um expressivo testemunho de comunhão eclesial e de confiança filial na proteção materna de Nossa Senhora de Cárquere, reunindo comunidades paroquiais que, em espírito de oração e devoção, convergiram para aquele sagrado lugar mariano.
As celebrações tiveram início no sábado, 23 de maio, com a celebração da Eucaristia, durante a qual várias crianças da comunidade local realizaram a sua Primeira Comunhão e Profissão de Fé, assumindo publicamente o compromisso de crescer na fé da Igreja.
Na manhã de domingo, dia 24, as paróquias de Anreade, Barrô, Cárquere, Feirão, Felgueiras, Freigil, Miomães, Ovadas, Paus, Resende, São Cipriano, São João de Fontoura, São Martinho de Mouros e São Romão de Aregos organizaram as suas procissões em direção ao Santuário, acompanhadas pelos respetivos párocos. Entre cânticos marianos, oração e a recitação das Ladainhas de Todos os Santos, os peregrinos formaram um solene cortejo de louvor, súplica e ação de graças.
O ponto alto da jornada aconteceu no Largo do Carvalhal, com a celebração da Eucaristia presidida por Dom António Couto, concelebrada pelos sacerdotes presentes e assistida pelo diácono ao serviço da zona pastoral. Durante a celebração, dezenas de jovens receberam o Sacramento do Crisma, sendo fortalecidos pelo dom do Espírito Santo para testemunharem Cristo nas suas vidas.
Na homilia, inspirada na liturgia da Solenidade do Pentecostes, Dom António Couto dirigindo-se aos crismandos e a todos fiéis presentes, salientou que o Espírito Santo é presença viva que transforma o coração humano e conduz a caminhos novos de esperança, fraternidade e missão. Evocando o Pentecostes narrado nos Atos dos Apóstolos, salientou que os discípulos, antes fechados pelo medo, saíram ao encontro do mundo animados pela força do Espírito.
O Prelado destacou ainda a universalidade da linguagem do amor e da proximidade, explicando que, no Pentecostes, cada povo compreendia os Apóstolos como se os escutasse na sua própria língua materna. A verdadeira linguagem humana, afirmou, nasce do coração, da capacidade de acolher, compreender e reconhecer no outro um irmão.
Referindo-se aos desafios do mundo atual, marcado por conflitos, divisões e incertezas, evocou o pensamento do estadista italiano Alcide De Gasperi: «Um político pensa nas próximas eleições; um homem de Estado pensa nas próximas gerações». Sublinhou ainda que a verdadeira força cristã é uma “dýnamis”, um dinamismo novo capaz de renovar a vida das pessoas e das comunidades.
Antes da bênção final, o Bispo de Lamego explicou ainda a insistência com que utilizara, no início da homilia, a expressão “caríssimos”, recordando que também São Paulo recorria frequentemente a esta forma de tratamento, pois a vida de cada ser humano é cara, porque cada pessoa é verdadeiramente preciosa aos olhos de Deus e possui uma dignidade incomparável.
Após a celebração, realizou-se a tradicional Consagração do Concelho, das paróquias e das famílias à proteção maternal de Nossa Senhora de Cárquere. O momento encerrou com a procissão do adeus, acompanhando o regresso da veneranda imagem de Santa Maria à sua igreja.
A peregrinação anual a Cárquere continua, assim, a afirmar-se como um verdadeiro caminho espiritual e comunitário, onde a fé do povo se renova e fortalece sob o olhar materno de Maria. Num tempo marcado por tantas inquietações, esta manifestação de fé permanece como sinal de esperança, unidade e confiança em Deus.
Diác. Eduardo Pinto, in Voz de Lamego, ano 96/27, n.º 4852, de 27 de maio de 2026



