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05

Jan

2012

Homilia do Sr. D. Jacinto Botelho no Dia Mundial da Paz

 

Homilia pronunciada no dia 01 de Janeiro de 2012 na Igreja Catedral de Lamego

 

Iniciámos às 0 horas de hoje o novo ano de 2012. Apesar das dificuldades que se vivem, muitos terão passado esse momento no meio da alegria e diversão esfusiantes em locais preparados para isso, no convívio de familiares e amigos, ou no aconchego da própria casa; alguns terão aproveitado essa ocasião, para no recolhimento da oração, pedirem ao Senhor a Sua Bênção e protecção para o ano que começa.

Gostaria de ser nesta homilia uma forte ressonância ao convite que Sua Santidade Bento XVI, nos dirigiu para este 45º Dia Mundial da Paz, recordando o Salmo 130, o homem de fé aguarda pelo Senhor «mais que a sentinela pela aurora»: “Convido-vos a olhar o ano de 2012 com esta atitude confiante.”

O Santo Padre não é utópico, um sonhador irrealista; ele conhece melhor que ninguém a dura realidade que tantos experimentam e afirma-o sem rodeios: “É verdade que, no ano que termina, cresceu o sentido da frustração por causa da crise que aflige a sociedade, o mundo do trabalho e a economia; uma crise cujas raízes são primariamente culturais e antropológicas. Quase parece que um manto de escuridão teria descido sobre o nosso tempo, impedindo de ver com clareza a luz do dia. Mas nesta escuridão, o coração do homem não deixa de aguardar pela aurora de que fala o salmista.”

É neste contexto que queremos alimentar a nossa esperança.

Celebramos liturgicamente no primeiro dia do ano a solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus. Atrevo-me a parafrasear as palavras de Bento XVI na mensagem Urbi et Orbi, no Dia de Natal: “ Vinde salvar-nos, Senhor nosso Deus. Vinde salvar-nos! Tal é o grito do homem de todo e qualquer tempo que, sozinho, se sente incapaz de superar dificuldades e perigos. Precisa de colocar a sua mão numa mão maior e mais forte, uma mão do Alto que se estenda para ele. Essa mão é Cristo, nascido em Belém da Virgem Maria.” Eu diria que essa mão é também a presença sempre carinhosa e solícita de Nossa Senhora, a quem Jesus nos entregou no alto do Calvário. Fixemos n’Ela a nossa atenção. Ela é a mulher referida no texto de S. Paulo aos Gálatas, por meio de quem nos chega a Graça insigne da nossa filiação divina, que ultrapassa infinitamente a Bênção que os sacerdotes de Israel, por ordem de Deus a Moisés, imploravam para o povo, no fim das grandes solenidades. Ela é modelo, de modo eminente e singular, de cada cristão, a discípula perfeitíssima, em cuja escola precisamos de nos matricular para aprendemos d’Ela, a «acolher na fé e na oração, a salvação que Deus quer comunicar a quantos confiam no seu amor misericordioso». Também precisou da Redenção e foi a primeira redimida, desde a Sua Conceição Imaculada. “É a primeira abençoada e é Aquela que traz a Bênção”. Perante o que ouvia aos pastores, ficou abismada e silenciosa, guardando todas as palavras e meditando-as em seu coração. Ela é a estrela iluminadora da nova evangelização, e ao mesmo tempo garantia da sua eficácia; a certeza de que somente a Boa Nova, guardada e meditada no coração, transformará cada um e a sociedade desorientada em que nos encontramos. “O tecido da humanidade, rasgado, esfarrapado, por tantas injustiças, maldades e violências”, como rezava ontem Bento XVI, na oração de Vésperas, foi refeito, porque a Mãe de Deus e nossa Mãe nos deu “a novidade, alegre e libertadora, de Cristo Salvador, que no mistério da Sua Encarnação e do Seu nascimento, nos permite contemplar a bondade e a ternura de Deus. […] Ele veio à terra, entrou na nossa história, para renovar radicalmente a humanidade e libertá-la do pecado e da morte, para elevar o homem à dignidade de filho de Deus”, como nos recordou a segunda leitura proclamada.

Mas o primeiro dia do ano é desde 1968 por determinação de Paulo VI, o Dia Mundial da Paz que em 2012 - o 45º - Bento XVI subordina ao tema Educar os jovens para a justiça e a paz, “convencido – são palavras do Santo Padre – de que eles podem, com o seu entusiasmo e idealismo, oferecer uma esperança ao mundo”. Certamente recordando ainda a inesquecível vivência da última Jornada Mundial de Juventude em Madrid, Sua Santidade que antes, ao referir o manto de escuridão descido sobre o tempo, afirmara que apesar de tudo, “o coração do homem não cessa de aguardar pela aurora de que fala o salmista, sublinha e destaca que “esta expectativa mostra-se particularmente viva e visível nos jovens”, justificando o motivo da escolha do tema: “É por isso que o meu pensamento se volta para eles, considerando o contributo que podem e devem oferecer à sociedade.

Esta educação, “a aventura mais fascinante e difícil da vida”, encontra na família, «célula originária da sociedade», a “primeira escola onde se educa para a justiça e para a paz”, porque “é na família que os filhos aprendem os valores humanos e cristãos que permitem uma convivência construtiva e pacífica; é na família que aprendem a solidariedade entre as gerações, o respeito palas regras, o perdão e o acolhimento do outro”. A mais rica e eficaz das pedagogias é o testemunho dado pelos pais, a quem o sacramento do matrimónio conferiu este ministério de educadores do qual não podem abdicar, e dá a Graça necessária para o desempenharem sem desânimo.

Explicitando a obrigação de educar para a justiça, alerta Sua Santidade Bento XVI para a mentalidade corrente que nos envolve e tantas vezes nos motiva, “onde o valor da pessoa, da sua dignidade, e dos seus direitos, não obstante as proclamações de intentos, está seriamente ameaçada pela tendência generalizada de recorrer exclusivamente aos critérios da utilidade, do lucro e do ter”. Daí a urgência de “não separar das suas raízes transcendentes, o conceito de justiça”, porque “a justiça não é uma simples convenção humana” determinada pela lei positiva, mas pela identidade profunda do ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus. O Santo Padre insiste na realidade que não podemos ignorar, de que “certas correntes da cultura moderna, apoiadas em princípios económicos racionalistas e individualistas, alienaram das suas raízes transcendentes o conceito de justiça, separando-o da caridade e da solidariedade”, apresentando o pensamento de modo pejorativo, com o diminutivo caridadezinha. “A «cidade do homem» - ensina Bento XVI - não se move apenas por relações feitas de direitos e de deveres, mas antes sobretudo por relações de gratuidade, misericórdia e comunhão. A caridade manifesta sempre, mesmo nas relações humanas, o amor de Deus; dá valor teologal e salvífico a todo o empenho de justiça no mundo”.

A paz, para cuja educação o Santo Padre apela na mensagem a que venho a fazer referência, “é fruto da justiça e efeito da caridade, é antes de mais nada dom de Deus; mas não é apenas dom a ser recebido, mas obra a ser construída”, como afirma, e por isso - continua Bento XVI – “para sermos verdadeiros artífices da paz, devemos educar-nos para a compaixão, a solidariedade, a colaboração, a fraternidade, ser activos dentro da comunidade e solícitos em despertar as consciências para as questões nacionais e internacionais e para a importância de procurar adequadas modalidades de redistribuição da riqueza, de promoção do crescimento, de cooperação para o desenvolvimento e de resolução dos conflitos.”

O esforço pelo cumprimento, perseverante e paciente, deste oportuníssimo programa de comportamento, permitir-nos-á olhar 2012 com uma atitude confiante. Um belo propósito que Santa Maria, Mãe de Deus, nos ajudará a cumprir, para este novo ano que desejo para todos vós, pleno de Graça, de Justiça e de Paz.

+ D. Jacinto Tomaz de Carvalho Botelho, Administrador Apostólico de Lamego