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Homilia pronunciada pelo Sr. D. Jacinto Botelho, Bispo de Lamego, na Solenidade de Corpo de Deus, a 03 de Junho de 2010, na Sé de Lamego
O centro da Palavra proclamado é a descrição feita por S. Paulo, da instituição da Eucaristia, o mais antigo dos quatro relatos da última Ceia, que o Novo Testamento nos oferece. S. Paulo com palavras exactas e carregadas de solenidade transcreve o que disse Jesus: Isto é o meu corpo, entregue por vós. Fazei isto em memória de mim. Este cálice é a nova aliança do meu sangue. Todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste vinho, anunciareis a morte do Senhor até que Ele venha. Todas as vezes, também hoje e agora. Portanto, conscientes desta recomendação, e de que é essa única Última Ceia que nesta Missa celebramos, correspondendo ao convite do Senhor, aclamaremos depois da Consagração: Anunciamos, Senhor a Vossa morte, proclamamos a Vossa ressurreição. Vinde Senhor Jesus! Mas a descrição do Cenáculo está como que emoldurada por dois outros episódios que constituem, com a narração da Ceia, um sugestivo tríptico. O primeiro, uma brevíssima alusão a ao sacrifício de Melquisedec que abençoou Abraão e ofereceu pão e vinho. Há uma referência a esta circunstância no Salmo 109 que atribui ao Rei Messias um singular carácter sacerdotal por investidura directa de Deus: Tu serás sacerdote para sempre segundo a ordem de Melquisedec. Na véspera da Sua morte Cristo instituiu a Eucaristia. Ele, como Melquisedec, ofereceu pão e vinho que nas Suas santas e veneráveis mãos, se tornaram o Seu Corpo e o Seu Sangue, oferecidos em sacrifício. Dava cumprimento à profecia do Antigo Testamento, ligada à oferta sacrificial de Melquisedec. Na Carta aos Hebreus recorda-se, precisamente: Ele tornou-se causa de salvação eterna para quantos lhe obedecem, sendo proclamado por Deus sacerdote à maneira de Melquisedec. Fixemo-nos no outro episódio, proclamado no Evangelho: a multiplicação dos pães. No contexto litúrgico desta Solenidade do Corpo de Deus, o milagre de Jesus ajuda-nos a compreender melhor o Dom e Mistério da Eucaristia. Jesus tomou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos ao Céu e pronunciou sobre eles a bênção. Depois partiu-os e deu-os aos discípulos para que os distribuíssem pela multidão. É um prodígio surpreendente que constitui o princípio dum processo histórico: a multiplicação, sem paragem na Igreja, do Pão da vida nova para os homens de todos os tempos, de todas as raças e de todas as culturas. É o que estamos a celebrar. Este ministério sacramental foi conferido aos Apóstolos e seus sucessores. Eles, fiéis à missão recebida, não pararam mais de partir o Pão eucarístico de geração em geração. Em Ano Sacerdotal vimos reflectindo nesta fidelidade; é com ela que conscientemente nós, os servidores do altar, nos queremos comprometer; e para que ela se consolide na vida de todos os sacerdotes, é que nós, Povo Sacerdotal, temos rezado incessantemente ao Senhor e O temos adorado talvez com mais assiduidade no Santíssimo Sacramento. Neste sentir, Sua Santidade Bento XVII, a quem, pela recente visita, continuamos ligados por uma grata e profunda comunhão, na Carta a Sua Eminência, o Cardeal Hummes, enviado especial ao XVI Congresso Eucarístico do Brasil, realizado em Brasília de 13 a 16 do passado mês de Maio, recomendava-lhe que exortasse os fiéis a ter uma grande estima pelos sacerdotes a quem Deus escolheu e constituiu ministros da Eucaristia, já que o Filho de Deus «desce diariamente do seio do Pai sobre o altar nas mãos do sacerdote». Rezemos muito pelos nossos diáconos que, se Deus quiser, em 20 de Junho, ordenarei presbíteros. Ele é o Pão vivo descido do Céu. Reunimo-nos para reflectirmos, em atitude de adoração, nas inesgotáveis riquezas deste Pão, plenitude de vida espiritual, na feliz expressão de S. Tomás de Aquino, citado pelo Concílio. Reunimo-nos para, no mesmo espírito de oração, Lhe darmos graças pelo dom total de Si mesmo no Seu Corpo e no Seu Sangue. Reunimo-nos para anunciarmos ao mundo, no testemunho da nossa vida, o amor de Deus, consequente à nossa participação consciente na Eucaristia. Reunimo-nos para fazermos a experiência de que “a Eucaristia cria comunhão e educa para a comunhão”, como ensinou João Paulo II, que continuava a esclarecer-nos, citando S. Agostinho: “Cristo Senhor consagrou na Sua mesa o sacramento da nossa paz e unidade. Quem recebe o sacramento da unidade, sem conservar o vínculo da paz, não recebe um sacramento para seu benefício, mas antes uma condenação”. E imediatamente a seguir: “Esta eficácia peculiar que tem a Eucaristia para promover a comunhão é um dos motivos da importância da Missa dominical”. Na Carta já referida de Bento XVI ao Cardeal Hummes pode ler-se textualmente: “É nossa vontade que todos os pastores da tua nação exortem os fiéis cristãos a participar comunitariamente na celebração eucarística, especialmente no Dia do Senhor; a purificar-se no sacramento da Reconciliação e a restaurar as forças no sagrado banquete”. É que - recordemos as palavras do mesmo Pontífice na Exortação Apostólica Sacramento de Caridade: “O mistério da Eucaristia habilita-nos e impele-nos a um compromisso corajoso nas estruturas deste mundo para lhes conferir aquela novidade de ralações que tem a sua fonte inexaurível no Dom de Deus. O pedido que repetimos em cada Missa: «O pão-nosso de cada dia nos dai hoje» obriga-nos a fazer tudo o que for possível, […] para que cesse ou pelo menos diminua no mundo o escândalo da fome e da subnutrição.” Já no parágrafo anterior tinha afirmado: “O alimento da verdade leva-nos a denunciar as situações indignas do homem, nas quais se morre à míngua de alimento por causa da injustiça e da exploração, e dá-nos nova força e coragem para trabalhar sem descanso na edificação da civilização do amor.” No fim desta celebração o Senhor percorre as ruas onde se desenrola a nossa vida concreta. O Senhor quer vir ao encontro da nossa existência, insidiada por tantos perigos, oprimida por horas de preocupação e de penas, sujeita ao inexorável desgaste do tempo, para com Ele aprendermos a ser próximos de todos, e para que Ele nos ensine a partilha cristã que pode desfazer a aberração chocante de todas as injustas e escandalosas assimetrias. Que Nossa Senhora, a «Mulher eucarística», por excelência, «o primeiro sacrário da História», no dizer de João Paulo II, nos una ao Santíssimo Sacramento, de tal modo que o nosso Amen antes da comunhão, se aproxime em compromisso, humilde e sincero, do seu FIAT, na resposta ao Anjo da Anunciação. |