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Homilia de D. António Couto na Ordenação Diaconal

O ÚNICO REI QUE NÃO REINA DESDE FORA

1. A nossa amada Igreja de Lamego assinala hoje a Dedicação desta Casa-mãe a Deus, nosso Pai, a quem foi solenemente entregue a 20 de novembro de 1776, após a realização de diversos lanços de obras. Mas já antes, desde tempos bem remotos, aqui se reuniam os seus filhos, aqui se dedicavam e entregavam a Deus, à escuta da sua Palavra, à fração do pão, à comunhão e à oração. Exulta, pois, Igreja de Lamego, mas lembra-te sempre que a Dedicação desta Casa-mãe a Deus, nosso Pai, reclama também de ti, hoje e sempre, dia após dia, a tua plena Dedicação a Deus. Por isso, aqui estamos hoje, festivamente reunidos como filhos e irmãos, para celebrar com a Igreja inteira a Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo, a que acresce hoje também a Ordenação Diaconal do Eleito Vítor Manuel Teixeira Carreira, da Paróquia de Nossa Senhora da Piedade de Queimadela.


2. Importa, antes de mais, deixarmo-nos inundar pelos tesouros da Escritura Santa, que a Liturgia deste Dia Solene nos oferece. O Livro de Ezequiel (34,11-17) ousa colocar à nossa beira e a cuidar de nós, a dizer o nosso nome, a debruçar-se sobre nós, a tratar as nossas feridas, a afagar o nosso rosto, não um médico ou enfermeiro, assistente social, catequista ou padre, mas o próprio Deus em pessoa. E o Salmo 23 canta essa proximidade de Deus com o seu Povo, e o extremado carinho que dedica a cada uma das suas ovelhas, a cada um de nós. O Apóstolo Paulo, no extrato da Primeira Carta aos Coríntios hoje lido (1 Coríntios 15,20-28), atesta que a esperança que arde em nós assenta em Jesus Cristo Ressuscitado, que constitui as Primícias da seara. Ora, as Primícias fazem parte da seara, são os primeiros frutos da seara, a primeira paveia de cevada ou de outros cereais ou frutos. Portanto, o que acontece às Primícias em primeiro lugar, na ordem do tempo, da representação simbólica e da promessa, acontecerá também a toda a seara.


3. O Evangelho (Mateus 25,31-46) é um riquíssimo manual ou agenda de vivência cristã, fazendo-nos ver o Senhor Jesus Cristo no meio de nós, tantas vezes vestindo a pele dos nossos irmãos mais pequeninos que, consciente ou inconscientemente, facilmente vamos atirando para trás das costas. Eis a revelação contundente de Jesus: «Cada vez que [não] fizestes isto a UM destes meus irmãos, os mais pequenos, foi a MIM que o [não] fizestes» (Mateus 25,40 e 45). Cada vez que [não] fizestes isto… Isto, o quê?, perguntamos nós, que tantas vezes atravessamos a vida distraídos. E a resposta surge com extrema precisão: «Tive fome e destes-ME [ou não] de comer (1), tive sede e destes-ME [ou não] de beber (2), era estrangeiro e recolheste-ME [ou não] (3), nu e vestites-ME [ou não] (4), estive doente e visitastes-ME [ou não] (5), estava na prisão e viestes ter COMIGO [ou não]» (6) (Mateus 25,35-36 e 42-43). Nesta tabuada todos reconhecemos facilmente a rampa de lançamento das chamadas «Obras de Misericórdia». «Vai, e faz tu também do mesmo modo», palavras de Jesus que indicam o caminho do nosso rumo pastoral para o ano em curso: eis a tua identidade e a tua agenda de todos os dias, Igreja amada de Lamego: bispo, sacerdotes, diáconos, consagrados, fiéis leigos.


4. A graça de uma Ordenação Diaconal, no Dia da Dedicação desta Casa-mãe e no Dia de Cristo-Rei, que é o único rei que não reina desde fora, portanto não reina com a espada, com a força, decretos e impostos, mas desde dentro, portanto com mansidão, graça, amor, justiça, verdade e paz, empresta à nossa reunião celebrativa de hoje a nota do serviço humilde e dedicado que todos, como filhos e irmãos, devemos uns aos outros. Não nos podemos esquecer que o Rei do Evangelho de hoje não ostenta cetro nem coroa, mas a Cruz e o amor; não vem de Jerusalém e da sua rigidez cultual e religiosa, com o machado aos ombros e a pá de joeirar nas mãos, de acordo com o cenário desenhado por João Batista, para cortar e limpar já e em força (cf. Mateus 3,10.12). Cortar as árvores que não dão fruto, e limpar a sua eira da palha e do lixo. Para muito espanto de João Batista, eis que o Messias esperado vem da Galileia dos pagãos, e não da judaica Jerusalém, e não vem para batizar, mas para ser batizado! É notória a atrapalhação de João Batista, que ao ver este Messias que vem com um colorido tão diferente do que ele imaginava, ainda desabafa soletrando as palavras: mas não era assim… (cf. Mateus 3,14). Mas também os discípulos de Jesus de ontem e de hoje, nós também, continuamos a pensar mais ou menos da mesma maneira, pois lá vamos continuando a propor, cheios de boa vontade com certeza, arrancar já a cizânia do meio do trigo (cf. Mateus 13,28). Mas, sempre com muito espanto nosso, o dono do campo diz que não (cf. Mateus 13,29), e propõe a mansidão e a boa e bela convivência entre todos, entenda-se, o tempo da evangelização que precede sempre o fim (cf. Mateus 24,14), apondo pausa e bemol aos nossos impacientes cenários, aparentemente lógicos, do já e em força (cf. Mateus 13,24-30.36-43).


5. Caríssimo Eleito para a Ordem dos Diáconos. Bem sabes que o teu modelo e a tua referência de vida é este Senhor, que é o Amor em pessoa, que veio para o meio de nós, para nos servir e nos salvar. Bem sabes também, em consequência, que a «tua missão é ajudar o Bispo e o seu presbitério no serviço da Palavra, do Altar e da Caridade» (Pontifical Romano, Ordenação dos Diáconos, n.º 199), e que o teu distintivo é o Evangelho de Cristo que hoje vais solenemente receber, e que tens a missão de proclamar, acreditar, ensinar e viver (Pontifical Romano, Ordenação dos Diáconos, n.º 210). Recordo-te ainda, caríssimo Eleito, que o anúncio do Evangelho é «a primeira caridade» para o mundo (Exortação Apostólica Evangelii Gaudium [2013], n.º 199; Exortação Apostólica Novo millennio ineunte [2001], n.º 50), e que também nunca deves esquecer, como bem lembra o Evangelho de hoje, que só «a caridade das obras garante uma força inequívoca à caridade das palavras» (Novo millennio ineunte, n.º 50).


6. Enfim, em tudo o que fizeres, caríssimo Eleito, imita o único Senhor da nossa vida e da tua vida, Jesus Cristo, mas imita também aquele servidor Filipe, que o Livro dos Atos dos Apóstolos 6,1-6 apresenta como um dos Sete, a quem foram impostas as mãos Apostólicas para «servir», e que aparece depois, no Capítulo VIII, a evangelizar a Samaria e o eunuco etíope. Significativamente, Filipe nunca recebe o título de «diácono» (diákonos). Assenta-lhe melhor o verbo «servir» (diakoneîn). O único título que que lhe é dado é o título belo de «o Evangelista» (ho euaggelistês) (Atos dos Apóstolos 21,8). Partindo da exortação do Apóstolo São Paulo ao seu discípulo
Timóteo, também eu te exorto hoje a ti, caríssimo Eleito: «Faz o trabalho de um Evangelista!» (cf. 2 Timóteo 4,5). Põe a tua vida em sintonia com o lema da nossa Diocese para este Ano Pastoral: «Vai, e faz tu também do mesmo modo!».


7. Próprio do anúncio do Evangelho é a leveza, a beleza e a dedicação total. Só assim, caríssimo Eleito, caríssimos sacerdotes e caríssimos fiéis leigos, amados irmãos e irmãs, estaremos em sintonia com o Evangelho e avivaremos a Dedicação da nossa Igreja Catedral, desta Casa-mãe que hoje nos acolhe. Dedicação total. Não vos posso pedir menos. Também não vos posso pedir mais. A todos vós: caríssimo Eleito, caríssimos sacerdotes, caríssimos fiéis leigos. E que o bom Deus oriente e alumie sempre os nossos passos, e que sejam os nossos propósitos os d’Ele. Ámen.


Lamego, 26 de novembro de 2017,
Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo
+ António, vosso bispo e irmão

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