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Natal - 2007

Reunimo-nos, uma vez mais, no coração desta noite de Natal, para celebrarmos o Amor de Deus. Deus amou de tal modo o mundo que lhe deu o Seu próprio Filho.

Quem dera que fosse esta a nossa profunda convicção e a ela abríssemos, a ela escancarássemos o nosso coração, como nos gritou o saudoso Servo de Deus, João Paulo II, desde o início do seu pontificado. Jesus veio para o que era seu e os seus não o receberam. Para Ele não houve lugar na hospedaria, recordou-no-lo o Evangelho há momentos.


“A Humanidade vive hoje, infelizmente, grandes divisões e fortes conflitos que lançam densas sombras sobre o seu futuro”, constatamo-lo todos e afirma-o Bento XVI na mensagem para o próximo Dia Mundial da Paz.

E foi afinal a paz que a multidão dos Anjos cantou na noite do nascimento de Jesus. Tem toda a razão de ser esse canto - ouvimo-lo de Isaías na primeira leitura – “porque um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado. Tem o poder sobre os ombros e será chamado Conselheiro admirável, Deus forte, Pai eterno, Príncipe da Paz. O Seu poder será engrandecido numa paz sem fim”. Ele é a Paz. Mas nós continuamos surdos à Sua mensagem, incapazes de a ouvir, porque estamos mergulhados num oceano de ruídos que nos aliena.

Nos últimos dias, a propósito da reportagem sobre os Monges da Cartuxa, tem-se falado mais vezes de silêncio. As pessoas, diante do que lhes parecia uma excentricidade, quedaram-se abismadas, interrogando-se como é possível viver assim. E a resposta vem daqueles homens religiosos, plena de alegria e simultaneamente de tranquilidade interior. Na solidão procurada, encontraram-se consigo próprios, com Deus e afinal com toda a criação. Vivem intensamente uma presença que a barafunda da vida nos não permite experimentar.

Numa das últimas viagens de João Paulo II, creio que à Espanha, ele falava com apreensão do deficit de interioridade da sociedade contemporânea, consumista, como factor determinante da realidade das tais densas sombras sobre o futuro da humanidade, a que alude Bento XVI que acima referi.

O Natal é convite à intimidade com o Senhor. A simplicidade e a pobreza do presépio reclamam de nós o despojamento da nossa importância, do apego avaro à riqueza material, da sede de grandeza e de superioridade; a simplicidade e a pobreza do Natal são oportunidade de meditação silenciosa, à imitação da Virgem que tudo guardava no seu coração.

Só neste ambiente e com esta atitude, crescemos em interioridad,e captaremos a mensagem e experimentaremos a paz. É esta a forma de celebrar o Natal cristão.

Estas são com certeza também as disposições que desejamos ter na Eucaristia que vivemos. Este altar é mais que a manjedoura de Belém. O Menino que nesta quadra litúrgica se multiplica indefinidamente nas imagens dos presépios e das decorações, está vivo aqui, e próximo de cada um, nesta Missa da Meia-Noite. Quer chegar ao nosso coração, para inundá-lo do Seu amor. Temos a sorte dos pastores que O adoraram admirados e se tornaram os primeiros anunciadores da mensagem que tinham recebido e contemplado. Mais sorte temos ainda. Os pastores puderam vê-l’O, porventura tê-l’O-ão acariciado e, por benevolência de Nossa Senhora, terão pegado n’Ele ao colo. Mas nós temos a dita de recebê-l’O na comunhão sacramental.

Mas reconheceremos nós, aqui e agora, a presença real do único Jesus de Belém?

Só a fé nesta presença real tem capacidade para realizar a mudança urgente que o Santo Padre pediu aos Bispos portugueses na Visita ad Limina.

O beijo ao Menino com que nos despediremos da Catedral no fim da celebração, seja expressão de propósitos de paz, de amor, de justiça e de perdão sem ressentimentos, traduzidos em gestos pródigos de acolhimento, afabilidade, compreensão e carinho e que fraternalmente e mutuamente trocaremos como linguagem de votos de Boas Festas. “O Natal veio a ser a festa das prendas, para imitar Deus que por nós se doou a Si próprio”. A afirmação é de Bento XVI na homilia do Natal do ano passado.

Que a Virgem, Mãe de Deus Menino e nossa Mãe, e S. José, também nosso Pai adoptivo, nos ensinem a encontrar Jesus e a anunciá-l’O no testemunho solidário da vida.

Um Santo e Feliz Natal para todos.

 

 

 

O Bispo de Lamego

D. Jacinto Tomás de Carvalho
Botelho,  Bispo de Lamego,
é natural de Vila Rua,
no concelho de Moimenta
da Beira.
 
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