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17

Abr

2017

Homilia de D. António Couto na Vigília Pascal - 2017

 

RESSUSCITOU COMO DISSE, ALELUIA!

 

1. «Este é o Dia que o Senhor fez!» (Salmo 118,24). Aleluia! Este é o Dia que o Senhor nos fez! Aleluia! Este é o Dia em que o Senhor nos fez! Aleluia! «Por isso, estamos exultantes de alegria» (Salmo 126,3).

 

2. Este é o Dia em que desfiamos com amor o rosário das tuas maravilhas, tantas elas são, percorrendo a avenida das tuas Escrituras desde a Criação até à Páscoa, desde a Páscoa até à Criação. Tanto faz. Porque neste Dia novo o tempo não nos mede e nos separa e nos cataloga em séculos e milénios, mas põe-nos todos a conviver lado-a-lado. É assim que lemos e compreendemos que no teu «Filho amado», Jesus Cristo, Imagem tua e «primogénito dos mortos», «tudo foi criado» (Colossenses 1,16), «e sem Ele nada foi feito» (João 1,3). Lemos e compreendemos que o «teu Filho, Jesus Cristo, não foi Sim e não, mas unicamente Sim» (2 Coríntios 1,19). Passeámos assim no jardim da tua Criação boa e bela, visitámos as suas 452 palavras (Génesis 1,1-2,4a), e nelas não encontrámos, de facto, um único «não»! Se o teu Filho amado, Jesus Cristo, Imagem tua e primogénito dos mortos, foi sempre Sim e nunca não, e se foi n’Ele que foram criadas todas as coisas, então a Criação inteira tem também de ser Sim, Sim, Sim, e nunca não.

 

3. Que belo mundo novo, Senhor, quiseste depositar nas nossas mãos! Que grande Sim, que belo jardim nos confiaste, Senhor, antes de nós merecermos de Ti qualquer confiança! Visitámos depois o Egipto opressor, e de lá, Tu nos libertaste, Senhor, fazendo-nos atravessar a pé enxuto o mar Vermelho, como se fosse uma «planície verdejante» ou uma pradaria florida (cf. Sabedoria 19,7). Vestíamos roupas brancas, trazíamos o coração em festa, e nos lábios um cântico novo, como sucede também ainda hoje, Senhor, neste Dia admirável da tua Ressurreição, em que cantamos outra vez com inefável alegria: «Minha força e meu canto é o Senhor! A Ele devo a minha liberdade!» (Êxodo 15,2). Quem sou eu então, Senhor? Qual é a minha identidade? Obra das tuas mãos, do teu Amor, do teu Alento, eu sou recebido e agradecido. Ser eu é eu ser recebido, comovido e agradecido.

 

 

4. Com Isaías e Ezequiel, recordámos depois as paisagens tristes e sombrias do nosso exílio, mas também da tua admirável providência. Diz uma velha história rabínica que, um dia, «os jovens perguntaram ao velho rabino quando começou o exílio de Israel. Ao que o arguto rabino terá respondido que o exílio de Israel começou no dia em que Israel deixou de sofrer pelo facto de estar no exílio». Compreenda-se, portanto, que o exílio verdadeiro não consiste simplesmente em estar longe de casa ou da pátria, mas sobretudo em tornar-se indiferente e insensível, sem causas, sem sonhos e sem esperas, gastando o nosso dinheiro com aquilo que não alimenta, e esquecendo o teu insistente convite: «Vinde e comprai sem dinheiro vinho e leite […]. Ouvi-me, ouvi-me, e comei o que é bom» (Isaías 55,1-3). Como se a comida boa entrasse pelos ouvidos! Era assim que andávamos, Senhor, perdidos longe de ti e longe de nós. Mas também lá, à perdição em que andávamos, chegou a tua mão criadora, redentora, libertadora e carinhosa, e reconstruíste a nossa vida sobre a alegria, embelezaste o nosso rosto com óleo perfumado, e vestiste-nos com a veste branca dos teus filhos recém-nascidos. E como se isto não bastasse e não enchesse a medida do teu amor sempre sem medida, ainda fizeste connosco uma Aliança nova, e deste-nos um coração novo e um espírito novo. Também me parecia, que me devia parecer um pouco mais contigo.

 

5. Coração novo, música nova, ensinada pelos Anjos nos campos de Belém: Gloria in excelsis Deo! Outra vez lado-a-lado, oh milagre da Escritura Santa, dois acontecimentos no tempo separados: o nascimento de Jesus e a sua morte e Ressurreição: os mesmos Anjos, as mesmas faixas a envolver o Menino e o Crucificado, o Menino deposto na manjedoura, o Crucificado deposto no sepulcro. Extraordinária acostagem do Menino e do Crucificado. Crucificado, Morto e Sepultado, segundo as Escrituras. Ressuscitado, segundo as Escrituras. É este o fundo e o fundamento sobre o qual São Paulo aparece hoje a descodificar o nosso Batismo, pelo qual somos sepultados com Cristo, para com Ele ressurgirmos para uma vida nova (cf. Romanos 6,3-5).

 

6. É assim que chegamos sempre ao Ressuscitado. Àquele Jesus Cristo, Crucificado, Morto e Sepultado, segundo as Escrituras, que se levanta do chão raso e da folha plana de papiro ou de papel, elevando a humana vida e a inteira Escritura à sua Plenitude. Conforme a lição da Ressurreição do Evangelho segundo São Mateus, que nesta Noite Santa tivemos a graça de escutar, mal aparecem as primeiras três estrelas no firmamento, que acendem o Primeiro Dia da semana (tê epiphôskoúsê eis mían sabbátôn) (Mateus 28,1a), portanto, tão depressa quanto podem, mal passa o sábado, logo após o sol-posto, nós diríamos à noitinha e não de manhãzinha (particularidade de Mateus), as mulheres vêm ao túmulo para ver (theôréô) com atenção e carinho (Mateus 28,1b). Já antes, na cena da Morte de Jesus, estavam lá a ver (theôréô) da mesma maneira (Mateus 27,55), únicas duas menções deste verbo no Evangelho de Mateus. Mas o que é que as mulheres querem ver ali, naquele cenário de morte, com tanta atenção e carinho? Eis que se levanta um terramoto grande, do céu vem um Anjo do Senhor, rola a pedra, e sentava-se (ekáthêto: imperf. de káthêmai) sobre (epánô) ela (Mateus 28,2). A pedra da morte não pode ser retirada por nós. É, na verdade, «muito grande», refere o Evangelho de Marcos (16,4). É manifesta a nossa impotência face à pedra muito grande da morte. O sentar-se sobre (epánô) a pedra da morte, como sobre um trono (cf. Mateus 23,22), indica alguém que tem domínio sobre a morte. Por sua vez, o uso do verbo no imperfeito, indica duração, domínio que permanece. À vista do sucedido, os guardas de serviço ficaram cheios de medo, e caíram como mortos (Mateus 28,4). Às mulheres, o Anjo diz para não terem medo, e desvenda o que elas sentem e pensam, isto é, a forma como elas veem: «Sei que procurais Jesus, o Crucificado; não está aqui; foi Ressuscitado como disse» (Mateus 28,5-6), e convida-as a irem identificar (ideîn) o lugar onde jazia (cf. Mateus 28,6).

 

7. A pedra retirada do sepulcro e o facto de o Anjo se sentar sobre ela indica o fim do domínio da morte sobre nós. A pedra não é retirada para Jesus sair, mas para que as mulheres possam entrar e verificar a ausência do corpo de Jesus. E a ausência do corpo de Jesus aqui, neste lugar, neste túmulo, que as mulheres bem conheciam, pois «estavam (ên) (imperfeito, que implica duração) lá sentadas (ekeî kathêmenai) diante dele» (Mateus 27,61), mostra que a Ressurreição de Jesus não é menos real do que a sua morte. Não é, todavia, suficiente que as mulheres vejam o túmulo aberto e a ausência lá do corpo de Jesus; é necessário o anúncio da Ressurreição feito pelo Anjo: é necessário o anúncio da presença de Jesus, de uma maneira nova de Jesus estar presente! E fazer notar que essa maneira nova de Jesus estar agora presente não é um improviso, mas se acorda com o que Jesus tinha antes dito (cf. Mateus 16,21; 17,9 e 23; 20,19) e com a inteira Escritura (segundo as Escrituras). E é ainda o Anjo que as faz dar um novo passo em frente, incumbindo-as de uma missão: «Ide dizer aos seus Discípulos que Ele foi ressuscitado dos mortos e vos precede na Galileia» (Mateus 28,7), outra vez de acordo com quanto Jesus tinha dito (cf. Mateus 26,32). E elas partiram imediatamente, e, com alegria grande, correram a levar a notícia (Mateus 28,8). Mas pelo caminho são surpreendidas pelo próprio Jesus Ressuscitado, que as convida à alegria e a não terem medo, e reformula, de forma maravilhosa, o último dizer do Anjo: «Ide dizer aos meus Irmãos…» (Mateus 28,9-10). Dito por Jesus, à maneira de Jesus, nós já não somos apenas seus discípulos; somos seus irmãos!

 

8. O relato evangélico é sóbrio, mas rico e denso. Fiel a esta intensa sobriedade, a arte cristã nunca se atreveu a representar a Ressurreição antes dos séculos X-XI. É tal o fulgor da Luz deste mistério, que ficará sempre no domínio do inefável, que simultaneamente ilumina e esconde. É por isso que a Paixão de Jesus é um relato de uma luta entre a Vida e a morte, o Amor sem medida e o ódio sem fundo, mas a Ressurreição, que põe fim ao relato, só nos pode chegar como Notícia, vinda de fora. Em termos cronológicos, o relato da luta precede a Notícia da Vitória. Mas em termos lógicos, é a Notícia que precede o relato. É, portanto, lógico, que as mulheres do Evangelho, e nós com elas, sejamos enviados, antes de mais, a levar a Notícia da Ressurreição de Jesus, isto é, que a Vida e o Amor venceram a morte e o ódio. Mas, dada a Notícia da Vitória, as pessoas vão querer saber como se processou a luta. É aí que entra o relato, sempre importante, que devemos sempre ilustrar com a nossa vida. É importante e imperioso para a Igreja, e para mim e para ti, anunciar o amor; mas é ainda mais importante relatá-lo!

 

9. É por isso que esta Noite é uma fulguração de Luz e Lume novo. Desde as brasas acesas, ao Círio Pascal aceso, ao nosso coração aceso como o dos discípulos de Emaús. É também por isso que o Batismo começou por ser chamado «Iluminação», sendo a Vigília Pascal também a grande Noite Batismal. E cada batizado levará para sempre a arder dentro de si este Lume Vivo.

 

10. Ilumina, Senhor, a tua Igreja Santa, e os seus novos filhos que hoje nascem na fonte batismal. Que os nossos passos sejam sempre firmes, e o nosso coração sempre fiel. Vem, Senhor Jesus! Aleluia!

Lamego, 16 de abril de 2017, Domingo de Páscoa da Ressurreição do Senhor,

Homilia na Celebração da Vigília Pascal

+ António, vosso bispo e irmão