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04

Jul

2017

Homilia de D. António Couto nas Ordenações Sacerdotais

 

HOJE MESMO TERÁS TRÊS FILHOS NOS BRAÇOS!

 

1. Refere uma indicação do Pontifical Romano acerca da Ordenação dos Presbíteros que o Bispo faz a homilia, dirigindo-se ao povo e aos Eleitos, falando-lhes do ministério dos presbíteros, a partir do texto das leituras lidas na liturgia da palavra (n.º 123). É o que vou tentar fazer, caríssimos fiéis leigos, caríssimos Eleitos Ângelo Fernando, Diogo André e Luís Rafael, caríssimos sacerdotes e diáconos, consagrados, seminaristas.

Amados irmãos e irmãs, amados Eleitos, o Evangelho segundo S. Mateus apresenta-nos hoje a última parte do Discurso Missionário de Jesus (Mateus 10,37-42). São afirmações vertiginosas. Ficai atentos, portanto, às curvas e contracurvas do Evangelho de Jesus, não vá alguém adormecer ou enjoar, e ir borda fora e ficar pelo caminho, isto é, ficar sem caminho. Eis o texto:

«10,37 Quem ama o pai ou a mãe mais do que a MIM, não é digno de MIM; quem ama o filho ou a filha mais do que a MIM, não é digno de MIM. 38 Quem não recebe a sua Cruz para seguir atrás de MIM, não é digno de MIM. 39 Quem encontrar a sua vida, vai perdê-la, e quem perder a sua vida por causa de MIM, vai encontrá-la.

40 Quem vos ACOLHE, é a MIM que ACOLHE; e quem ME ACOLHE, ACOLHE Aquele que ME enviou. 41 Quem ACOLHE um profeta por ele ser profeta, receberá recompensa de profeta; quem ACOLHE um justo por ele ser justo, receberá recompensa de justo. 42 E quem der de beber um copo de água fresca a um destes pequeninos, por ele ser discípulo, em verdade vos digo, não perderá a sua recompensa» (Mateus 10,37-42).

2. Em primeiro lugar, o mais importante: as palavras vertiginosas e estonteantes, que ouvistes nos vossos ouvidos, saem todas dos lábios de Jesus, e são dirigidas a todos os discípulos de Jesus de todos os tempos, e ainda àqueles a quem eles se dirigirem. São, portanto, dirigidas a mim e a ti, e a ele e a ela, a vós, caríssimos Eleitos, a esta amada Igreja de Lamego; entenda-se sempre bem: amada por Deus, na sua inteireza, e em cada um dos seus membros. Sim, sente-te amada, Igreja de Lamego, como este Jesus, que está hoje no meio de nós e fala para nós. Ele é o Filho, o Amado, e tu, Igreja de Lamego, és filha no Filho e amada no Amado! Vós, caríssimos Eleitos, sois filhos no Filho, amados no Amado! E é este Amor a fonte do dizer e do fazer de Jesus. Portanto, e já, a fonte do nosso dizer e fazer, escuta bem, Igreja amada de Lamego, escutai bem, amados Eleitos, só pode ser o Amor, este Amor; nunca o desamor, a indiferença, o não-te-rales...

 

 

3. Como vos adverti para escutardes bem, dada a vertigem do Evangelho, penso que já deveis ter começado a fazer contas à vida. Então: «Quem ACOLHE um profeta…, receberá recompensa de profeta»; «quem ACOLHE um justo…, receberá recompensa de justo»; «quem der de beber um copo de água fresca a um destes pequeninos, por ele ser discípulo, não perderá a sua recompensa». Entenda-se: «Quem ACOLHE um profeta…, receberá recompensa de profeta; quem ACOLHE um justo…, receberá recompensa de justo; quem ACOLHE um discípulo…, receberá recompensa de discípulo». Jesus parte do princípio de que os seus ouvintes sabem o que é um profeta, e também sabem o que é um justo. Mas, para evitar equívocos, diz-nos o que é um discípulo. E, como sabeis, amados irmãos e irmãs, amados Eleitos, Ele explica sempre bem. O que é, então, um discípulo? É um destes pequeninos, sem currículo, sem carreira, sem poder, sem status. Permiti que o diga com as palavras de S. Paulo na sua primeira Carta aos Tessalonicenses:

 

«Como fomos aprovados da parte de Deus para nos ser confiado o Evangelho, assim falámos, não como aos homens querendo agradar, mas a Deus, que põe à prova os nossos corações. Tão-pouco nos apresentámos com palavras de adulação, como sabeis, nem com pretexto de lucro, Deus é testemunha, nem procurando dos homens glória, nem de vós, nem de outros… Pelo contrário, tornámo-nos pequeninos no meio de vós, como uma mãe que acalenta os próprios filhos. Assim, cheios de afeição por vós, bem queríamos dar-vos, não apenas o evangelho de Deus, mas também a nossa própria vida» (1 Tessalonicenses 2,4-8).

 

4. Acabei de dar cabo da vossa carreira, caríssimos Eleitos! Pequeninos, pequeninos, pequeninos, ao nível de uma mãe, ou de um copo de água. «Tive sede, e destes-me de beber», diz Jesus (Mateus 25,35); e diz ainda: «Cada vez que fizestes isto a um destes meus irmãos, os mais pequenos, foi a MIM que o fizestes» (Mateus 25,40). E diz ainda acerca da recompensa devida a quem ACOLHE um discípulo, um de entre os mais pequenos: «Recebei o Reino dos Céus, preparado para vós, desde a fundação do mundo» (Mateus 25,34).

 

5. Como vos adverti para estardes bem atentos, amados irmãos e irmãs, amados Eleitos, também deveis ter reparado que anda muito Jesus no Evangelho de hoje, que é Ele o único que fala, e que fala para nós, para mim e para ti, para vós, amados Eleitos, e para ti, amada Igreja de Lamego. Mas é de tal modo vertiginoso e estonteante o dizer de Jesus, que agrafa a nossa vida completamente à dele, de tal modo que passa para segundo plano as nossas relações familiares, os nossos afazeres e negócios e outras realidades do dia-a-dia. É com Ele, com Jesus, que a nossa vida, amados Eleitos, amada Igreja de Lamego, tem de estar entrelaçada, comprometida, desposada, direi mesmo, ensarilhada. Se tendes o ouvido apurado, deveis ter anotado, em apenas quatro versículos (37-40), dez pronomes pessoais de primeira pessoa [8x MIM; 2x ME], com que Jesus se diz a si mesmo e nos agrafa a Ele. Pelo sim, pelo não, escutai outra vez, e reparai bem na força vinculativa destes pronomes:

 

«10,37 Quem ama o pai ou a mãe mais do que a MIM, não é digno de MIM; quem ama o filho ou a filha mais do que a MIM, não é digno de MIM. 38Quem não recebe a sua Cruz para seguir atrás de MIM, não é digno de MIM. 39 Quem encontrar a sua vida, vai perdê-la, e quem perder a sua vida por causa de MIM, vai encontrá-la.

40 Quem vos acolhe, é a MIM que acolhe, e quem ME acolhe, acolhe Aquele que ME enviou» (Mateus 10,37-40).

 

E ouvistes ainda, em apenas dois versículos (40-41), seis vezes o verbo ACOLHER. Mostro outra vez:

 

«10,40 Quem vos ACOLHE, é a MIM que ACOLHE; e quem ME ACOLHE, ACOLHE Aquele que ME enviou. 41 Quem ACOLHE um profeta por ele ser profeta…; quem ACOLHE um justo por ele ser justo…» (Mateus 10,40-41).

 

Trata-se de ACOLHER Jesus, o Pai, os discípulos, os profetas, os justos, sabendo nós sempre, porque nos é dito, que ACOLHER os discípulos é ACOLHER Jesus, e ACOLHER Jesus é ACOLHER o Pai. O Pai, sim, a fonte do Amor. Anda tanto Deus por aí, e nós tão distraídos e entretidos com futilidades.

 

6. Amados irmãos e irmãs, caríssimos Eleitos. Tomai hoje verdadeiramente conta de Jesus, vivei por causa dele, que Ele tomará conta de vós! Tomai conta do Amor, tomai conta do Evangelho, que o Amor e Evangelho tomarão conta de vós! Caríssimos Eleitos, vivei sempre com amor, estremecimento, espanto e emoção os sacramentos que realizareis, sobretudo a Eucaristia e a Reconciliação. Como se fosse a primeira vez! Como se fosse a última vez! Como diz o Pontifical Romano, «Recebei a oferenda do povo santo para a apresentardes a Deus. Tomai consciência do que vireis a fazer; imitai o que vireis a realizar, e conformai a vossa vida com o mistério da cruz do Senhor».

 

7. Amados Eleitos, confio-vos a Deus, que há de sempre ser a nascente da vossa missão sacerdotal. Ouvimos há pouco Eliseu dizer, em nome de Deus, à mulher de Sunam: «Daqui a um ano, terás um filho nos braços!» (2 Reis 4,16). Amados irmãos e irmãs, enchei o vosso coração de júbilo, e façamos nós uma gracinha a Deus, e digamos, rezando: «Deus de Amor e de bondade, fonte da missão e do sacerdócio, hoje mesmo terás três filhos nos braços!». Ámen.

 

Lamego, 02 de julho de 2017, Dia do Senhor e de Ordenações Sacerdotais

 

+ António, vosso bispo e irmão