| Homilia do Sr. D. Jacinto Botelho na celebração de S. Sebastião | |
| por P. José Patrício 24 Jan 2010 8:34 | |
Esmagados pela tragédia indescritível do sismo que no passado dia 10, destruiu a capital do Haiti e provocou já cerca de 200.000 mortes e um número incontável de feridos e desalojados, e da qual, os ainda vivos nos escombros, com o auxílio das forças humanitárias desesperadamente procuram sobreviver, respondemos com a oração pelos mortos e pelos que vivem carentes de tudo, e respondemos também com a solidariedade material e humana que será sempre insuficiente nas circunstâncias de caos e de extrema necessidade que se verificam e que as imagens da Televisão nos mostram. Quero que seja esta uma das intenções desta celebração por este povo sacrificado e que, apesar de tudo, nos edifica com a sua fé.
Reunimo-nos na Catedral porque hoje é o dia em que a Liturgia faz memória de S. Sebastião, padroeiro principal da nossa Diocese, por isso Solenidade privilegiada. Ao longo dos anos neste dia quedamo-nos a meditar na recomendação do Senhor que acabamos de ouvir no Evangelho: Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma. […] A todo aquele que se tiver declarado por Mim diante dos homens também Eu me declararei por ele diante de meu Pai que está nos céus.
Foi este o testemunho desassombrado do cristão, S. Sebastião, com o risco da perder a posição elevada de oficial do exército romano e a própria vida, como aconteceu, um testemunho actualíssimo e pertinentíssimo.
A perseguição à Igreja que provocou o martírio de S. Sebastião, apresenta hoje aspectos diferentes, porventura mais insidiosos e por isso mais perigosos também. O relativismo que a tudo e a todos procura impor-se, como expoente de modernidade e democracia, com a capa de tolerância, é o caminho para todas as arbitrariedades, por aberrantes que sejam, e para o descalabro ético a que estamos a assistir mesmo entre nós. Uma mal compreendida laicidade leva à exclusão, como advertia Sua Santidade Bento XVI, no passado dia 11 de Janeiro na Audiência ao Corpo Diplomático acreditado junto da Santa Sé: “Infelizmente em certos países, sobretudo ocidentais, difundiu-se nos meios políticos e culturais, bem como nos mass media, um sentimento de pouca consideração e por vezes hostilidade, para não dizer menosprezo, para com a religião, particularmente a religião cristã.” Logo a seguir apontava a razão: “É claro que, se se considera o relativismo como um elemento constitutivo da democracia, corre-se o risco de conceber a laicidade apenas em termos de exclusão ou, mais exactamente, em termos de recusa da importância social do facto religioso.” E augurava, a propósito da entrada em vigor do Tratado de Lisboa: “Faço votos de que a Europa, na construção do seu futuro, saiba sempre beber nas fontes da própria identidade cristã.” O Santo Padre prosseguia a reflexão, referindo os países europeus e do continente americano, para denunciar com veemência o ataque que “provém das leis ou dos projectos que, em nome da luta contra a descriminação, atentam contra o fundamento biológico da diferença entre os sexos”. É-nos pedido a todos nós, cristãos, um testemunho de vida corajoso e assumido sem respeitos humanos que faça frente a um cada vez mais generalizado agnosticismo religioso que “faz parte duma cultura com características e conteúdos frequentemente contrários ao Evangelho e à dignidade da pessoa humana” e “que tem as suas raízes na crise de verdade do homem como fundamento dos direitos inalienáveis de cada um” – afirmava-o João Paulo II na Exortação Apostólica a seguir ao Sínodo para a Europa. Bento XVI foi igualmente peremptório na audiência a que acima fiz referência: “A liberdade não pode ser absoluta, porque o homem não é Deus, mas imagem de Deus, Sua criatura. Para o homem, o caminho a seguir não pode ser fixado pelo que é arbitrário ou apetecível, mas deve, antes consistir na correspondência à estrutura querida pelo Criador.” Quando o homem conscientemente prescinde de Deus, e atenta contra valores ou princípios da própria natureza, é o homem que se destrói e a civilização que se desmorona. Que futuro preparamos?
Em pleno Oitavário de Oração pela Unidade dos Cristãos, em que o apelo ao testemunho, expressão da vivência cristã, é a palavra de ordem e de reflexão, o exemplo de S. Sebastião é estímulo de coragem e factor da comunhão que nos centraliza no fundamental do mistério da nossa Redenção. Com brandura e respeito, como nos ensina S. Pedro na segunda leitura, temos de estar sempre prontos a responder, com palavras e atitudes, a quem quer que seja, sobre a razão da nossa esperança. Os tempos não são fáceis, mas o Baptismo que nos torna filhos de Deus e discípulos de Cristo, exige-nos a disposição de afirmar sem falsas ambiguidades as nossas convicções, a nossa fé, mesmo com o risco da impopularidade ou da incompreensão, porventura até da amizade, se é posta em causa pela divergência. Se formos sérios e corajosos, não nos faltará a Graça do Senhor no meio dos problemas e das dificuldades ou mesmo perseguições, como o autor do Livro de Ben-Sirá nos revelou e partilhou connosco no maravilhoso Hino de Acção de Graças e de Esperança que foi a primeira leitura: Eu Vos darei graças, Senhor, … porque fostes o meu protector e o meu auxílio … Vós me livrastes de todas as tribulações que sofri … porque livrais aqueles que esperam em Vós e os salvais das mãos dos inimigos.
Neste dia de S. Sebastião e nesta Eucaristia, o nosso seminarista do V ano do Curso Superior de Teologia, Ricardo Manuel Pereira Esperanço, de Almacave, recebe o ministério de Leitor, no itinerário para o Presbiterado. Em ano sacerdotal, continuando a implorar do Senhor a Graça da fidelidade para todos os sacerdotes, devemos sentir mais intensamente, e agradecer mais comprometidamente também, a Benemerência divina que é para a Diocese o momento que vamos viver. Saúdo e felicito os pais do Ricardo, bem como o Seminário e a Paróquia, e desejo que o novo Leitor assuma como verdadeiro programa de vida o que pediremos na oração que antecede a entrega da Sagrada Escritura. Ricardo, medita assiduamente a Palavra de Deus, instrui-te nela e anuncia-a fielmente aos irmãos.
Também eu não posso esquecer a Graça do Episcopado e a unção do Espírito que há 14 anos aqui recebi pela imposição das mãos do Senhor D. Eurico, Arcebispo Primaz Emérito, e dos outros irmãos no episcopado concelebrantes. Igualmente, há precisamente dez anos, também neste dia, era tornada publica a minha nomeação para Bispo de Lamego. Quero manifestar-vos o mais profundo e sentido reconhecimento pelo testemunho de comunhão que tendes para comigo, e em especial pela riqueza das vossas orações que vêm em auxílio da minha fragilidade e pobreza espiritual. Os dois aniversários devem ser para mim, a viver o Ano Sacerdotal, na expectativa da visita de Sua Santidade Bento XVI a Portugal, ocasião de sério exame de consciência e oportunidade para a conversão a que a misericórdia de Deus e a minha miséria humana me obrigam. Ecce, Fiat, Magnificat.
Que a protecção da Mãe dos Sacerdotes e a intercessão de S. Sebastião e do santo Cura de Ars, nos torne mais conscientes da fidelidade que temos de testemunhar. Amen.
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