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Instituições

Dia Mundial da Paz - Homilia Sr. D. Jacinto
por P. Hermínio Lopes  4 Jan 2010 12:23  

      No primeiro dia de 2010, 43.º Dia Mundial da Paz, somos nesta Catedral da Senhora da Assunção comunidade que celebra a Solenidade de Santa Maria, Mãe De Deus.
É a festa mariana mais antiga da Igreja do Ocidente. Atrevo-me, ao principiar esta breve homilia, a parafrasear a pergunta que Sua Santidade Bento XVI formulou diante da imagem da Imaculada Conceição na Praça de Espanha em Roma, no passado dia 8 de Dezembro: Que nos diz Nossa Senhora no início deste novo ano? Que nos recorda nesta Solenidade? Ela é a mulher por excelência referida na Carta de S. Paulo aos Gálatas, que inaugura a plenitude dos tempos, e nos deu o Filho de Deus e Seu Filho também, o qual nasceu para nos resgatar do pecado e nos tornar filhos adoptivos do Pai do Céu a quem pelo Espírito podemos chamar com verdade Pai Nosso.

Diz-nos o Evangelho agora proclamado que Nossa Senhora, diante do que ouvia aos pastores, e dos comentários e admiração daqueles que os pastores alvoroçaram com o relato do que tinham visto e ouvido, perante o mistério de que era protagonista também, conservava todos estes acontecimentos meditando-os em seu coração. É a primeira e grande lição que nos dá. Só o silêncio e a interioridade podem abrir-nos à torrente de graça que o seu Jesus quer derramar sobre nós.

Maria é o atalho seguro e rápido para chegarmos a Seu Filho. Per Mariam ad Jesum. Ouçamo-La na recomendação que personaliza com cada um e repete incessantemente para ajudar-nos na nossa fidelidade de cristãos: Fazei tudo quanto Ele vos disser. Desde que nos foi dada como Mãe, do alto da Cruz, no monte do Calvário, não deixa de estar muito próxima para que sempre nos mova, no comportamento e nas palavras, a convicção de que Ele - Jesus - é o único caminho, a única verdade, a verdadeira vida, por isso, indispensável, imprescindível. 

A certeza da Sua presença na nossa vida, para a qual a Solenidade que celebramos chama a nossa atenção, e na presente circunstância do princípio de um novo ano, é garantia de autêntica e comprometida vida cristã e consequentemente de serena felicidade. Maria conservava e meditava os acontecimentos no seu coração. Ensina-nos que a felicidade que ansiamos ter não está fora de nós, ou na saúde, no êxito, na riqueza, mas na maneira como nos posicionamos diante destas realidades. Essa felicidade é o resultado do ver tudo com o coração repleto do amor de que o Verbo Incarnado o quer encher, através da solicitude maternal de Sua Mãe.

Precisamos de experimentar a segurança desta presença de Nossa Senhora. Proponhamo-nos a consciencializá-la, ao longo do ano, a sós ou em família, com uma piedade mariana, sólida e profunda, nomeadamente com a recitação do terço que tanto é do Seu agrado. Senti-La-emos em cada dia de 2010, como Mãe da divina graça, Mãe do bom conselho, Causa da nossa alegria, Saúde dos enfermos, Refúgio dos pecadores, Consoladora dos aflitos, Auxílio dos cristãos, Rainha da família, Rainha da Paz. Por Ela nos chegará a abundância da Bênção descrita na primeira leitura, e que Deus, no diálogo com Moisés, promete ao Povo de Israel. 

De há 43 anos para cá, por vontade e decisão de Paulo VI, o primeiro dia de cada ano é o Dia mundial da Paz. Neste 1 de Janeiro de 2010, propõe-nos o Santo Padre Bento XVI o tema: Se quiseres cultivar a paz, preserva a criação. E logo Justifica a escolha: "O respeito pela criação reveste-se de grande importância, designadamente porque «a criação é o princípio e fundamento de todas as obras de Deus» e a sua salvaguarda torna-se hoje essencial para a convivência pacífica da humanidade."
A interpelação que Sua Santidade nos dirige é incisiva, de modo a provocar, como resposta, atitudes conscientes, responsáveis e imediatas. Interroga o Santo Padre: "Pode porventura ficar-se indiferente perante as problemáticas que derivam de fenómenos como as alterações climáticas, a desertificação, o deterioramento e a perda de produtividade de vastas áreas agrícolas, a poluição dos rios e dos lençóis de água, a perda da biodiversidade, o aumento das calamidades naturais, o desfloramento das áreas equatoriais e tropicais?" E a interpelação de Bento XVI prossegue contundente: "Como descurar o fenómeno crescente dos «refugiados ambientais», ou seja pessoas que, por causa da degradação do ambiente onde vivem, se vêem obrigadas a abandoná-lo - deixando lá muitas vezes também os seus bens - tendo de enfrentar os perigos e as incógnitas de uma deslocação forçada?" 

Mas Sua Santidade aponta igualmente a solução: "A crise ecológica manifesta a urgência de uma solidariedade que se projecte no espaço e no tempo." 

A situação preocupante e urgente de resolução reclama "que as sociedades tecnologicamente avançadas - a afirmação é de Sua Santidade - estejam dispostas a favorecer comportamentos caracterizados pela sobriedade, diminuindo as próprias necessidades de energia e melhorando as condições da sua utilização". Por isso Bento XVI formula um voto,"de que se adopte um modelo de desenvolvimento fundado na centralidade do ser humano, na promoção e partilha do bem comum, na responsabilidade, na consciência da necessidade de mudar estilos de vida e na prudência, virtude que indica as acções que se devem realizar na previsão do que poderá suceder amanhã".

Aqui reside o êxito da solução, mas aqui se depara também com a grande dificuldade de concretizá-la, proveniente do egoísmo do homem que, "perdendo o sentido do mandato de Deus que o mandou «cultivar e guardar a terra», se comporta "no relacionamento com a criação, como explorador, pretendendo exercer um domínio absoluto sobre ela". O fracasso da recente cimeira de Copenhaga é prova irrefutável desta reflexão. 

"Tudo o que existe pertence a Deus - recorda o Santo Padre - que o confiou aos homens, mas não à sua arbitrária disposição". Sua Santidade sublinha o que já afirmara na encíclica Caritas in Veritate: "A degradação da natureza está intimamente ligada à cultura que molda a convivência humana, pelo que, «quando a ‘ecologia humana' é respeitada dentro da sociedade, beneficia também a ecologia ambiental». [...] Por isso - continua o Papa - de bom grado encorajo a educação para uma responsabilidade ecológica, que salvaguarde uma autêntica «ecologia humana» e consequentemente afirme, com renovada convicção, a inviolabilidade da vida humana em todas as suas fases e condições, a dignidade da pessoa e a missão insubstituível da família." "O livro da natureza é uno e indivisível, tanto sobre a verdade do ambiente como sobre a vertente da vida, da sexualidade, do matrimónio, da família, das relações sociais, numa palavra, do desenvolvimento humano integral." Onde se verificarão entre nós mais graves agressões: contra a ecologia humana ou contra a ecologia ambiental? É uma pergunta que me parece actual e oportuna no contexto legislativo que em Portugal estamos a viver.
Unamo-nos ao Santo Padre Bento XVI, cuja visita, nós portugueses, neste ano de 2010, aguardamos com ansiedade, numa oração fervorosa "a Deus, Criador omnipotente e Pai misericordioso, para que no coração de cada homem e de cada mulher ressoe, seja acolhido e vivido o premente apelo: Se quiseres cultivar a paz, preserva a criação".
Que a Rainha da Paz interceda por nós, e nos conceda um 2010 pleno de Paz e com muita esperança. São os votos que dirijo a todos os caríssimos diocesanos.


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O Bispo de Lamego

D. Jacinto Tomás de Carvalho
Botelho,  Bispo de Lamego,
é natural de Vila Rua,
no concelho de Moimenta
da Beira.
 
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